Briefings, malas e chinelos nº 34… ou como o verão continua a ser o maior stress test

  • Joana Garoupa
  • 21 Agosto 2025

As férias são um termómetro da cultura organizacional. Desligar é um privilégio. Parar, um ato de resistência. Voltar sem culpa, o verdadeiro luxo.

Junho e julho, no nosso setor, não são só meses de campanhas frescas, deadlines inflexíveis e pedidos “só mais uma coisa antes de ires”. São a verdadeira reta final antes da pausa ilusória chamada “férias”. Ou melhor, da tentativa de férias — porque parar, mesmo só por uns dias, continua a ser um desafio coletivo.

Primeiro vem a ronda de mensagens:“Já agora, quando vais de férias?”. “Consegues fechar isto antes do dia X? Eu saio dia Y.” Depois chega o excel das escalas, o grupo de WhatsApp dos que “seguram o forte” e o malabarismo das aprovações que, como sempre, precisa de três assinaturas e duas validações jurídicas. Tudo isto para garantir que a marca continua a brilhar no feed — mesmo quando nós estamos deitados ao sol. Supostamente.

Gerir equipas já é uma arte em qualquer mês. Mas fazê-lo com o país inteiro mentalmente de chinelos e fisicamente ainda a disparar e-mails com “urgente” no assunto é um verdadeiro exercício de resistência. Porque em comunicação e marketing, setembro é um mito urbano. Tudo o que não for resolvido até final de julho… entra automaticamente no universo paralelo do “depois do verão”.

Mas há um lado da história que merece ainda mais atenção: a gestão invisível do 2.º turno. Ou seja, tudo aquilo que acontece fora do horário laboral — e que, na esmagadora maioria dos casos, continua a recair sobre as mulheres.

Enquanto uns fecham o portátil e fazem a mala em 15 minutos, outras somam camadas de responsabilidade antes sequer de pensar em descanso: kits de primeiros socorros, protetores solares fator 50, calções que já não servem, compras no supermercado, marcações médicas, chinelos nº 34 e a inevitável visita à esteticista. Isto se não for preciso encaixar também uma sessão de terapia — só para garantir sanidade mental mínima.

A campanha “Pronta para o 2.º turno?”, criada pela FCB, Edson Athayde e lançada pela Corações Com Coroa, pôs o dedo na ferida com elegância e brutal honestidade. Apresentada na Fundação Gulbenkian, durante a 13.ª Conferência da CCC, a campanha partiu de dados simples, mas reveladores: As mulheres gastam, em média, mais 1h45 por dia do que os homens em tarefas domésticas e de cuidado. Esse tempo “invisível” representa 78 mil milhões de euros por ano — mais do triplo do setor do turismo.

Num setor como o nosso — onde tantas mulheres lideram marcas, equipas e agências — esta realidade exige mais do que empatia: exige consciência crítica e transformação interna. Não basta comunicar propósito. É preciso vivê-lo.

As férias são um termómetro da cultura organizacional. Há espaço para parar sem culpa? As equipas funcionam na ausência de líderes? A gestão está suficientemente madura para permitir pausas reais? Ou continuamos presos ao modelo onde tudo gira em torno de uma ou duas pessoas que voltam sempre mais cansadas do que foram?

Desligar é um privilégio. Parar, um ato de resistência. Voltar sem culpa, o verdadeiro luxo.

Porque antes da espreguiçadeira à beira-mar, muitas de nós já fizeram uma maratona. Este artigo, claro, foi escrito numa pausa entre reuniões, com o Outlook aberto e três lembretes ativos: “ligar ao dentista”, “comprar chinelos nº 34” e “deixar resposta automática pronta”.

Boas Ferias!

  • Joana Garoupa
  • Fundadora Garoupa Inc

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