Editorial

Bruxelas assina cheques para comprar tempo

No discurso do Estado da União, a presidente da Comissão apontou roteiros, promessas de reformas e planos protecionistas, mas sobraram cheques que servem sobretudo para comprar tempo.

Depois das tarifas de Trump e do encontro do chamado ‘Eixo da Revolta’, que juntou a China, a Rússia e a Coreia do Norte em Pequim, o discurso da União de Ursula Von der Leyen era o momento para se perceber qual seria a capacidade de afirmação da União Europeia de um bloco económico viveu os últimos 70 anos do dividendo da paz e da segurança paga pelos EUA. A presidente da Comissão apontou roteiros, promessas de reformas e planos protecionistas, mas sobraram cheques que servem sobretudo para comprar tempo.

Há uma guerra na Europa, há uma geopolítica em transformação acelerada e uma União Europeia que não tem os meios para ser competitiva nem para assegurar a sua independência, militar e de segurança. É este o quadro de fundo, também aquele que explica as declarações do presidente do Conselho, António Costa, sobre as condições em que foi celebrado o acordo de tarifas com Trump, o acordo possível para proteger o espaço europeu. A Europa corre contra o tempo, e foi basicamente isso que Von der Leyen anunciou.

Precisamos de objetivos políticos claros. É por isso que irei apresentar um Roteiro para o Mercado Único até 2028, no capital, nos serviços, na energia, nas telecomunicações, no 28.º Regime [o novo quadro jurídico para empresas inovadoras] e na 5.ª liberdade para o conhecimento e inovação [uma proposta do antigo primeiro-ministro italiano Enrico Letta]”, revelou a presidente da Comissão Europeia esta quarta-feira. Um Scale-Up Europe Fund (parceria público-privada “multi-billion”), uma Battery Booster (1,8 mil milhões em capital próprio) e um critério “Made in Europe” na contratação pública europeia. Mais capital, um reforço da oferta industrial e uma proteção de mercado às empresas europeias, uma estratégia pensada para reter as empresas em fase de desenvolvimento que tendem a ir para os EUA para encontrarem o ambiente de negócio e de capital para crescerem.

A Comissão Europeia quer jogar no mesmo terreno dos EUA e da China, com muita geopolítica, mas isso também parece mostrar uma confissão de incapacidade na criação de riqueza e uma opção por um certo protecionismo que, também é verdade, está alinhado com os ventos do tempo. Mas é na prática a cedência do espaço político europeu às práticas de política dos chineses e americanos. O realismo a vencer quando também é evidente que os europeus têm de ter uma capacidade militar comparável à força de um mercado económico.

Von der Leyen anuncia um pacote de simplificação alargado que pode valer, antecipa, cerca de oito mil milhões de euros de redução de custos, mas a estratégia de competitividade assenta acima de tudo em cheques e financiamento, enquanto promete um verdadeiro mercado único europeu, ainda longe de estar cumprido. Não chega decretar o “mercado único”, é preciso mesmo mais mercado, mais concorrência à escala europeia. Mas como diz a própria presidente da Comissão, “só o que é medido é concretizado”.

PS:Montenegro em Pequim. Uma ponte forte ou um ponto fraco?“, era o título do Login de há dois dias. Ainda em Macau, eis a estranha declaração do primeiro-ministro na rede social X:

Luís Montenegro falou com o presidente americano a partir de território chinês… Não há coincidências.

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