Burnout e IA: a tecnologia não se cansa. O advogado sim

A IA não elimina a necessidade de pensar; aumenta-a. Cada resposta precisa de ser lida com critério. Cada fonte precisa de ser validada. Cada nuance precisa de ser pesada.

Há uma promessa que percorre conferências, white papers e apresentações de vendas sobre inteligência artificial aplicada à advocacia. A promessa diz assim: faça mais, em menos tempo, com menos esforço. É uma promessa verdadeira — e é exactamente aí que mora o perigo.

A IA entrou no meu quotidiano profissional como uma ferramenta de trabalho, não como uma moda. Revê textos, estrutura ideias, pesquisa jurisprudência, compara argumentos, prepara reuniões. Bem utilizada, multiplica a capacidade de um advogado de formas que há cinco anos seriam impensáveis. Isso é real. O que as apresentações de vendas não dizem é o que acontece a seguir.

A tecnologia não se cansa. O advogado sim.

Quando a máquina não hesita — quando responde, reformula, sugere e acrescenta sem parar — o operador humano torna-se o único elemento finito do sistema. A IA não elimina a necessidade de pensar; aumenta-a. Cada resposta precisa de ser lida com critério. Cada fonte precisa de ser validada. Cada nuance precisa de ser pesada por alguém que conhece o cliente, o processo e o que está em jogo. Esse alguém cansa-se.

O que muda, na prática, não é o esforço por tarefa — é o perímetro do trabalho. Se antes se preparava uma nota, agora prepara-se a nota, uma versão alternativa, uma síntese para o cliente e uma checklist de riscos. A IA não substituiu o trabalho: expandiu-o. E expandiu-o precisamente para o único elemento do sistema que tem limite.

Há aqui uma ilusão que a cultura profissional da advocacia torna especialmente perigosa: a do advogado que, com bons prompts e bons agentes, acredita poder abarcar sozinho cada vez mais assuntos, mais clientes, mais detalhe. A profissão sempre confundiu resistência com competência. A IA dá a essa confusão uma escala nova. É verdade que a rotação dos mais jovens — de dois em dois anos, quando não de seis em seis meses — já era uma fonte de frustração para quem neles investia. A IA não resolve isso. Pelo contrário: ao absorver parte das tarefas que justificavam essa formação, torna o problema menos legível e mais difícil de combater. Mas daí não resulta que a equipa seja dispensável. Resulta que teremos de repensar o que pedimos às pessoas e como as formamos. Um escritório não floresce com capacidade individual de produção — floresce com equipa, delegação e critério sobre o que se pede a cada pessoa. Quanto mais abundante for a produção assistida por IA, mais valioso se torna quem sabe distinguir o plausível do correcto e o útil do excessivo. Esse julgamento não se automatiza.

E o modelo económico da advocacia escapará a esta reconfiguração? Quando certas tarefas passam a consumir menos tempo, a hora facturável perde parte da sua inocência. O valor desloca-se — para a qualidade da solução, para a especialização, para a confiança que só a experiência gera. Não para o volume de horas. Isto é uma oportunidade, mas é também uma exigência: a de saber exactamente o que se oferece quando o tempo deixa de ser a medida.

A questão não é resistir à IA, nem endeusá-la. É perceber que a promessa de fazer mais com menos esforço é, no melhor dos casos, incompleta. A tecnologia expande o que é possível. Não expande o humano que decide, valida e responde.

A tecnologia não se cansa. O advogado sim. Reconhecer esse limite não é fraqueza — é o que separa quem usa a IA como ferramenta de quem a usa como álibi.

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