Cannes 2026: Os creators redefinem as Regras (parte II)

  • Ana Paula Costa
  • 2 Julho 2026

O que fica de Cannes 2026: a tecnologia continuará a transformar tudo, a AI continuará a acelerar processos, os algoritmos continuarão a moldar distribuição, consumo e decisão.

A creator economy dominou a conversa tanto quanto a IA — e com mais clareza sobre o seu papel na indústria. Mais de 385 creators registaram-se em plataformas de networking do festival, mais de 100 na estimativa de participantes ativos. O TikTok levou 16, a UTA — uma das maiores agências de talentos do mundo — mais de 70. Mas a novidade não foi o número. Foi a ambição.

Os criadores já não chegam a Cannes para assinarem contratos com as marcas — chegam como agências, como media owners, como proprietários de audiência, cultura e influência.

O sinal: O modelo de influencer como canal pago está a ser substituído por um modelo de parceria criativa estruturada. Para as marcas: repensar o modelo da sua relação com criadores. Para as agências: a concorrência já não é só entre si.

CMO’s sob pressão

Entre crescimento, performance, brand building, IA, data e pressão financeira, o papel do marketer tornou-se mais complexo do que nunca.

Uma frase ouvida durante o festival e muito comentada foi a da Jessica Jensen — CMO do LinkedIn:“We are living in a blender.” Os marketers vivem entre a pressão do curto prazo e a necessidade de construir valor de longo prazo, precisam de eficiência, mas continuam a precisar de diferenciação.

E é precisamente aqui que a criatividade recupera centralidade

Portugal — resistência com menos recursos

Portugal acompanhou a tendência global de queda nas inscrições: 64 inscrições em 2026, contra 137 em 2025, uma redução de 53%.

Num ano em que as novas regras tornaram o processo de submissão significativamente mais exigente — mais demorado, com mais responsabilidade, com maior exposição reputacional em caso de falha, a decisão de inscrever menos pode também ser lida como maior seletividade. A indústria portuguesa fez, à sua escala, o que o festival no seu conjunto fez.

Portugal acompanhou um ano globalmente mais exigente, mais seletivo e mais competitivo. E, mesmo nesse contexto voltou a demonstrar capacidade de colocar trabalho entre os melhores: um Leão de Prata e três shortlists na competição principal são uma presença digna num palco onde a maioria dos países não chega ao pódio. Não é o resultado de 2025, mas voltou a provar que consegue competir — e vencer — no palco mais exigente da criatividade mundial.

Um sinal promissor continua a vir da secção Young Lions, a medalha de Prata em Design e a shortlist em Film — o que projetou Portugal para a 3ª posição do ranking internacional — revelam uma geração de jovens profissionais portugueses com capacidade de competir ao mais alto nível mundial. Num festival que está a tornar-se progressivamente menos acessível — financeira e logisticamente — para mercados mais pequenos, a presença e o reconhecimento dos Young Lions portugueses é, ela própria, uma forma de resistência.

O que fica de Cannes 2026: a tecnologia continuará a transformar tudo, a AI continuará a acelerar processos, os algoritmos continuarão a moldar distribuição, consumo e decisão.

Mas deixou uma ideia particularmente clara, num mundo cada vez mais orientado por algoritmos, aquilo que mais valor ganha é precisamente o que lhes resiste: a curiosidade, a originalidade, a sensibilidade, o gosto, a visão

No fim, continuam a ser as ideias – e as pessoas por detrás delas – que fazem a diferença.

  • Ana Paula Costa
  • Representante Lions Festivals

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