Capacidades cognitivas e eficiência económica
SAP, ASML e Ikea são exemplos práticos de que as competências não são meros conceitos teóricos, mas sim práticas fundamentais. Mais do que reduzir custos, o desafio está em investir melhor.
Num contexto económico global marcado por disrupção tecnológica, volatilidade e pressão crescente sobre custos, a sustentabilidade empresarial deixou de depender exclusivamente de fatores tradicionais como capital físico ou escala. Hoje, a eficiência da despesa e a criação de valor estão profundamente ligadas a ativos intangíveis: capacidades cognitivas, humildade para aprender, abertura a novas possibilidades, pensamento estratégico plural (fox thinking) e resiliência adaptativa.
As capacidades cognitivas, entendidas como a aptidão para analisar, interpretar e decidir sob incerteza, têm um impacto direto na forma como os recursos são alocados. Em termos macroeconómicos, os decisores públicos com uma maior sofisticação cognitiva tendem a promover políticas mais eficientes, reduzindo o desperdício e melhorando a relação custo-benefício da despesa pública. No contexto empresarial, traduzem-se na qualidade das decisões estratégicas e operacionais. Empresas com recursos humanos capazes de interpretar dados, antecipar tendências e avaliar riscos com rigor conseguem reduzir custos desnecessários, otimizar investimentos e melhorar as margens, refletindo-se diretamente na redução do desperdício, numa maior rentabilidade do capital aplicado e por conseguinte, em decisões de investimento mais robustas.
Assistimos igualmente a uma nova geração, nomeadamente os jovens com maior literacia financeira, pensamento crítico e (alguma) capacidade económica a fazer escolhas racionais: no consumo, na poupança e no investimento, contribuindo desta forma para uma economia mais equilibrada e resiliente.
A humildade e a vontade de aprender assume um papel crítico: por um lado, as organizações que reconhecem as lacunas e promovem uma aprendizagem contínua, adaptam-se mais rapidamente às mudanças do mercado. Este fator está associado a menores custos de transição em períodos de mudança (por exemplo, digitalização ou reestruturação), evitando erros estratégicos prolongados para se evitar uma despesa adicional e perda de competitividade. Por outro lado, as administrações públicas que reconhecem as suas limitações e incorporam esta evidência empírica nas políticas públicas tendem a corrigir os erros mais rapidamente, evitando custos – e agonias aos contribuintes – prolongados.
Acrescento um fator fulcral para a inovação e eficiência que, em termos práticos, se traduz por manter os “olhos abertos para outras possibilidades”: as empresas que exploram alternativas — novos modelos de negócio, processos mais eficientes ou tecnologias emergentes — conseguem frequentemente reduzir os custos operacionais ao mesmo tempo que aumentam as receitas. Trata-se de uma lógica de “fazer melhor, com menos”, essencial numa economia globalizada.
O conceito de fox thinkers, desenvolvido por Isaiah Berlin, é particularmente relevante no mundo empresarial. Ao contrário dos decisores rígidos (hedgehogs), os fox thinkers consideram múltiplas variáveis e cenários. Em termos económicos, isto traduz-se numa melhor gestão do risco, evitando decisões excessivamente concentradas que podem gerar perdas significativas ou custos inesperados, que é particularmente relevante na gestão orçamental. Ao contrário das abordagens lineares, estes perfis reconhecem a incerteza e incorporam diferentes possibilidades nas decisões, resultando numa maior robustez das políticas económicas, reduzindo o risco de erros sistémicos que frequentemente conduzem a derrapagens orçamentais ou crises fiscais.
Por fim, a adaptive resilience — assente em aprender, crescer e persistir — representa um pilar central da sustentabilidade económica. As economias resilientes são aquelas que conseguem absorver os choques (financeiros, tecnológicos ou sociais) sem comprometerem a estabilidade de longo prazo. Esta resiliência depende, maioritariamente, da capacidade dos agentes — Estado, empresas e cidadãos — de se adaptarem rapidamente, requalificarem as suas competências e reorientarem os seus recursos. Por exemplo, do ponto de vista da despesa pública, investir na educação, na requalificação profissional e na inovação não é apenas um custo, mas sim uma estratégia de mitigação de riscos futuros.
A SAP, uma das maiores empresas tecnológicas da Europa, é um exemplo claro de como as capacidades cognitivas, a humildade organizacional e adaptive resilience influenciam diretamente a eficiência da despesa e o desempenho económico. Durante a última década, esta empresa enfrentou um desafio estrutural: a transição do seu modelo tradicional de licenciamento de software para um modelo baseado em cloud computing. Esta mudança implicava riscos elevados, incluindo perda de receitas no curto prazo e necessidade de investimento significativo. Em termos práticos, a SAP conseguiu transformar a sua estrutura de custos e receitas, demonstrando que ao investir em aprendizagem e formação contínua, adaptação e pensamento estratégico plural, não só reduziu os riscos como melhorou a sua eficiência económica.
Um outro exemplo é a ASML, sediada nos Países Baixos, é hoje líder mundial na produção de máquinas de litografia para semicondutores, que é um mercado altamente complexo e intensivo em capital (merece a leitura das 350 páginas do Relatório e Contas de 2025). A vantagem competitiva desta empresa está na capacidade excecional de integrar conhecimento científico, engenharia avançada com visão estratégica. As tomadas de decisão são, para além de altamente informadas, baseadas em dados e em investigação, acrescidos do facto de a ASML ter uma relação estreita com universidades e parceiros industriais, numa clara aposta na inovação decorrente da aprendizagem contínua e externa.
Por último, um exemplo mais próximo de todos nós, a Ikea. Um caso clássico europeu de como os “olhos abertos para possibilidades e resiliência adaptativa” podem transformar um modelo de negócio num benchmark global de eficiência. A Ikea reinventou o conceito de mobiliário, introduzindo o modelo flat-pack (produtos desmontados), reduzindo drasticamente os custos de transporte e armazenamento, adaptando-se ao longo dos anos, a diferentes mercados, a cadeias logísticas e a pressões inflacionistas, mantendo os preços acessíveis.
Estes exemplos – ASML, SAP e IKEA – demonstram que estas competências não são meros conceitos teóricos, mas sim determinantes práticos da eficiência da despesa e do desempenho económico.
Num cenário europeu que procura reforçar a sua competitividade global, a valorização destes fatores torna-se essencial. Integrá-los no desenvolvimento de políticas e na formação das novas gerações é essencial para assegurar não apenas o crescimento económico, mas também a sustentabilidade financeira e equidade intergeracional.
Mais do que reduzir despesa, o desafio está em gastar melhor, e isso depende, em larga medida, da qualidade do pensamento, da abertura à aprendizagem e da capacidade de adaptação das organizações.
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