Capitalismo Consciente. Um caminho para a regeneração?

  • Inês Diogo e Catarina Soares
  • 29 Junho 2023

Chegou a hora de redefinir o Poder como a capacidade de elevar e não de esmagar, de inspirar e não de forçar, de regenerar e não de destruir.

Quando fiz o MBA, há mais de 20 anos, ensinaram-nos que a nossa missão na vida era “maximizar o valor do acionista”. O mundo está a mudar depressa e há tanta incerteza em relação ao futuro, que muitos já consideram os impactos nas outras partes interessadas, nomeadamente a Comunidade e a Natureza, e não apenas a perspetiva dos/as acionistas.

Fomos levadas/os a acreditar que mais é sempre melhor que menos, que o crescimento infinito resolverá todos os problemas, que as pessoas existem separadas da Natureza, que os recursos naturais são infinitos, entre muitas outras crenças limitadoras. A nível individual isto reflete-se no consumo desenfreado de bens e serviços na procura da felicidade, gerando cada vez mais desperdício, continuando a destruir a Mãe-Terra. Para resolvermos esta teia de desafios temos de nos treinar, intencionalmente, a ver para além dos condicionamentos – temos de elevar a nossa consciência. As empresas também estão a encontrar a sua consciência.

Raj Sisodia apercebeu-se ao fazer o seu doutoramento em Columbia que, naquele ano, a despesa total em Marketing nos E.U.A. superava o PIB total da Índia. Decidiu dedicar a sua pesquisa às empresas que não investiam muito (ou nada) em Marketing, e que tinham clientes fidelizadas/os, equipas motivadas, e excelentes resultados financeiros. Assim nasceu o Capitalismo Consciente (CC).

O CC alavanca nas forças do capitalismo (criação de emprego, mobilização de recursos, etc.) para tornar o mundo melhor, a nível social e ambiental. Mais do que fazer offset dos impactos negativos, a própria atividade de uma empresa consciente gera impactos positivos. O CC assenta em 4 pilares, cada um deles com metodologias bem definidas: Propósito, Cultura, Partes Interessadas e Liderança.

  • Propósito Maior – quase todas as empresas sabem o Que ambicionam ser (Visão) e Como o vão fazer (Missão), mas a maior parte não faz ideia do Porquê da sua existência (Propósito). Um Propósito maior, claro e formalizado, simplifica as decisões (nomeadamente de investimento) e traz sentido e motivação a quem está, em qualquer capacidade, envolvida/o com a organização. “Entreter o Mundo” (Netflix), “Realizar Sonhos de Liberdade Individual” (Harley Davidson), são bons exemplos.
  • Cultura que Cura – ninguém se demite de um emprego, as pessoas demitem-se da chefia e/ou da cultura. É a cultura que dita o ritmo. Um ambiente de medo, que permite (e até recompensa) maus comportamentos, sem espaço para errar, não dá espaço à inovação e à criatividade. Há que cultivar uma cultura assente em Valores genuínos, onde as pessoas sentem que pertencem e em que colaboram. Também aqui o CC nos traz ferramentas práticas e simples. Por exemplo, se queremos ver determinados comportamentos mais frequentemente na nossa organização, podemos reconhecê-los publicamente, estimulando-os. Durante o período da pandemia uma escola em Portugal enviou cartões às crianças das/os colaboradoras/es, reconhecendo e agradecendo o esforço que as suas mães/pais estavam a incorrer, e que permitia a centenas de jovens continuarem o processo de aprendizagem.
  • Envolvimento das Partes Interessadas – um mapa de stakeholders é uma ferramenta que identifica as partes interessadas da organização, mapeando não só os suspeitos do costume – acionistas, clientes, colaboradores, fornecedores – como também as outras entidades e seres vivos afetadas, de uma maneira ou outra, pela nossa atividade (concorrentes, vizinhos, entidades licenciadoras, reguladores, rios, florestas…). Podemos então priorizar as partes interessadas e atribuir um/a responsável dentro da organização por essa relação, revendo periodicamente o progresso.
  • Liderança Consciente – uma organização consciente não é possível sem líderes conscientes. Através de exercícios e de uma prática consistente, elevamos líderes a inspirar e motivar as suas comunidades. Ser um/a líder consciente envolve estar presente, ser uma pessoa inteira (com acesso às suas qualidades masculinas, femininas, juvenis e anciãs), ter flexibilidade, estar alinhada/o com um propósito pessoal e passar pela jornada heroica (deixando para trás aquilo que não a/o permite evoluir), acedendo ao Poder verdadeiro (uma fonte de energia inesgotável), ao invés de basear conquistas em fontes de poder externas e sucesso na destruição do outro.

Elon Musk, a pessoa mais rica do mundo, desafiou recentemente Mark Zuckerberg para uma luta, para mostrarem (a quem?), através da força, quem é afinal “o Maior”. Zuckerberg aceitou e escolheu um ringue em Las Vegas para a disputa. Basta de egos e de sistemas de domínio. Chegou a hora de redefinir o Poder como a capacidade de elevar e não de esmagar, de inspirar e não de forçar, de regenerar e não de destruir. As emissões de carbono atingiram máximos históricos em 2022. Os sistemas em que nos baseamos estão a quebrar, e é pelas frechas que entra a luz (já cantava Leonard Cohen). Tenhamos a humildade e a coragem de pausar, observar, ouvir, sentir, intuir. Só assim, de dentro para fora, temos alguma hipótese de evitar a pressão da ganância e do curto prazo, colaborando a caminho da regeneração das nossas comunidades e do planeta. A elevação dos valores femininos surge-nos como a nossa única chance de sobrevivência.

Nota: esta é a coluna da iniciativa cívica Women in ESG Portugal para o ECO/Capital Verde, e por este meio pretende-se trazer conteúdos ligados ao ESG de forma descomplicada para a sociedade, na voz de mulheres que detêm expertise técnica na área. Para mais informações, aceda ao site: www.winesgpt.com

  • Inês Diogo
  • Director of Environment & Sustainability Madoqua Ventures
  • Catarina Soares
  • Non Executive Board Director, Consultora, Professora Adjunta na NOVA-SBE

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