Capitalismo de amigalhaços

A banca portuguesa já não existe e o último resistente era a Caixa Geral de Depósitos. A auditoria revela que a CGD serviu, de sobremaneira, para alimentar um capitalismo de amigalhaços!

1 – A banca portuguesa já não existe. Perdeu-se para capital estrangeiro, de Espanha até à China, tal como se perderam supostas referências, desde Jardim Gonçalves a Ricardo Salgado. Uma espécie de viagem sem retorno, num misto de surpresa e indignação, tanta foi a reverência que sempre mereceram por parte do poder político e de toda economia em geral, comunicação social incluída.

2 – O último resistente era a Caixa Geral de Depósitos, mas a recente auditoria pôs a nu o que se temia quando os contribuintes foram chamados a capitaliza-la em quatro mil milhões de euros: nem ajudou as pequenas e médias empresas, nem desenvolveu um cluster genuinamente nacional, fosse ele o mar ou as start ups. Serviu, de sobremaneira, para alimentar um capitalismo de amigalhaços! Um capitalismo crony, como definiu Paul Samuelson sobre a economia japonesa dos anos 90. E que o centrão político português – PS, PSD e CDS – importou com notável refinamento. Um modelo que serviu para acomodar boys, fazer empréstimos sem nenhum contraparte ou qualquer lógica empresarial.

3 – O que sobressai, para lá de todo este desvario, é que ainda não foi julgado um único responsável. Quem pagou as consequências das milhares de falências, do desemprego, da perda de rendimentos que toda a crise da banca nos custou, foi quem nada teve a ver com essas decisões mirabolantes, desde créditos sem nexo a outros sem qualquer rigor. Quem por lá andava, converteu-se: passou a liderar fundos, reinventou-se com o crédito incobrável, vendido depois ao desbarato. Um lifting sem rugas: até passaram a pedir novas regras de vigilância mais apertadas! Nesse aspecto, a Caixa Geral de Depósitos bateu a concorrência aos pontos. Para quem tinha como missão apoiar a economia portuguesa, perdeu-se em estratégias políticas nebulosas, com recurso ao dinheiro dos contribuintes.

4 – Camus escrevia que a honra era a última riqueza dos pobres. Se não conseguirmos exigir explicações e julgar quem tomou estas decisões; se não formos capazes de avaliar os erros e construir um modelo de administração que impeça o nepotismo político que marcou essa década e meia negra da Caixa Geral de Depósitos, significa que não aprendemos nada. É tempo de parar com o passa culpas de cariz político e apresentar respostas concretas para que uma Caixa aberta nunca mais volte a ser possível.

5 – Estamos a assistir ao último estertor da esquerda boliviana. A tragédia da Venezuela expressa-se em números: 3 milhões de pessoas a cruzarem a fronteira em fuga por uma vivência digna; uma população que perdeu, em média, 11 quilos devido à crónica ausência de alimentos e a uma insuportável hiperinflação; uma economia que viu desaparecer nos últimos seis anos metade da sua riqueza com o afundar do valor do petróleo. A Maduro tem valido a complacência da comunidade internacional, sobretudo a europeia, e umas Forças Armadas de tal maneira fragmentadas e controladas pelos serviços secretos que só lhes tem restado ser leais. Mas quando a população se revolta como temos assistido nos últimos dias, fica claro que já nada tem a perder e que o processo é imparável.

6 – Em semana da Taça da Liga que, pela primeira vez, juntou os melhores clubes portugueses, um outro protagonista ocupou o palco do futebol. O VAR tornou-se nebuloso. De clarificador passou a enviesado e a tender para um corolário: mais vale uma arbitragem que erre a um VAR premeditado, que perscruta e esgravata para condenar uns e ilibar outros. Nesse capítulo, estamos de regresso ao ponto de partida: suspeitas de manipulação e critérios desiguais para o mesmo tipo de jogadas. A ideia original é muito boa. E fulcral numa indústria que precisa de credibilidade para não definhar economicamente. Mas o futebol português é muito mais sofisticado do que parece.

  • Jornalista. Subdiretor de Informação da TVI

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