Christine Lagarde, presa por ter cão e presa por não ter

No meio de enorme incerteza, a presidente do BCE teve razão ao aumentar os juros e dizer que o futuro será o que tiver de ser.

Liderar um banco central é atualmente uma profissão de elevado risco. Não falo, claro, das tricas entre Centeno e Santos Pereira (nem dos incompreensíveis investimentos deste último), mas da dificuldade em tomar decisões que afetam o percurso da economia, e portanto das vidas de milhões de pessoas, numa altura de turbulência e imprevisibilidade.

Aos banqueiros centrais e às suas equipas pedimos que projetem os rumos da inflação e do crescimento económico para os próximos anos e, com isso, decidam quanto custará o dinheiro – na forma de taxas de juros – durante alguns meses. Nunca foi uma tarefa fácil, vamos convir, com diferentes graus de sucesso no acertar das decisões, no esforço de manter a independência face ao poder político e na rápida transmissão das medidas para a economia. Corta demais e a inflação pode disparar; sobe demais e estrangula a economia – é o difícil equilíbrio de andar no trapézio da política monetária, sem rede.

O mandato de Christine Lagarde na liderança do Banco Central Europeu (BCE) tem ilustrado essa dificuldade, agravada por surpresas, como se alguém estivesse a atirar objetos para tentar derrubar a trapezista. A francesa chegou a Frankfurt em novembro de 2019, quatro meses antes do início da pandemia. Com a economia mundial repentinamente paralisada, o banco central da Zona Euro teve de manter abertas as portas do financiamento, através de taxas de juro perto de 0%, e garantir a liquidez nos mercados via de massivos programas de compras de ativos. Lagarde e BCE conseguiram atravessar esse trapézio? Houve um ligeiro atraso face à Reserva Federal (Fed) americana, mas as medidas funcionaram e ajudaram a economia e os cidadãos do bloco da moeda única.

Ainda a recuperar da pandemia, o BCE teve rapidamente de lidar com novas ameaças ao equilíbrio, em fevereiro de 2022 com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Desta vez, contudo, Lagarde esteve quase perder o balanço, com uma reação tardia à espiral inflacionária a provocar um coro de críticas. Só em julho de 2022 é que o BCE subiu as taxas de juro, já com inflação nos 8% e a fazer buracos nas carteiras dos consumidores e empresas. A ação pode ter vindo tarde, mas acabou por ser acertada. Com subidas dos juros até aos 4% (a taxa de facilidade de depósitos, no pico, em setembro de 2023), o banco central conseguiu controlar a inflação e depois começar um ciclo de flexibilização. A inflação descia para a meta dos 2% e o BCE conseguiu cortar as taxas de juros para esse mesmo nível e ficar aí durante um ano, o tal ‘bom lugar’ de que Lagarde falou tanto.

Infelizmente, logo no momento em que o BCE encontrara o equilíbrio perfeito, apareceram os mísseis do Médio Oriente, com os ataques americanos e israelitas ao Irão no último dia de fevereiro. Na reunião de março, os líderes do banco central mostraram que estavam atentos a todas as possibilidades ao apresentar projeções económicas com vários cenários, incluindo um severo. Era cedo ainda, no entanto, para agir, tão novo e imprevisível era o conflito, com o mesmo racional a aplicar-se à reunião de abril.

Chegados a junho, no entanto, o BCE já não podia esperar mais e decidiu aumentar as taxas de juro em 25 pontos base. O racional de Lagarde é que a guerra está a durar mais do que o esperado, a provocar um grande choque energético que já está a ter consequências nos custos indiretos. Terá sido uma subida preventiva, ou uma espécie de seguro contra o risco? Pragmática como sempre, Lagarde disse que não foi nada disso, mas uma medida sensata e necessária. E foi.

É natural que os membros do Conselho do BCE pensem ainda no que aconteceu em 2022, mas não foi por isso que decidiram uma subida agora. O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, enquadrou a sua discórdia com a decisão nesse quadro, dizendo que a situação é muito diferente, quer do ponto de vista da inflação, quer do ponto de vista das taxas de juros, daquela que o BCE enfrentou em 2022. Claro que é, ninguém duvida isso. Mas isso não deve ser razão para o BCE deixar de agir e de, como o próprio Miranda Sarmento referiu, de dar um sinal. É uma subida, sim, e vai afetar muitas pessoas, mas não estamos a falar de uma série de aumentos que vão estrangular a economia e os cidadãos da Zona Euro. Não podemos prender Lagarde por ter cão em 2022 e depois prender por não ter cão em 2026.

Era absolutamente necessário o BCE dar este sinal e manter intacta a sua reputação, especialmente quando do outro lado do Atlântico Kevin Warsh chega à liderança da Fed num momento em que a independência do banco central americano está em causa devido às pressões de Donald Trump

E também especialmente porque a partir do trapézio está quase impossível prever o que quer que seja em relação à geopolítica. Um dia temos promessas de grandiosos acordos de paz, no seguinte novos ataques e contra-ataques. O BCE ainda tem margem para mais apertos na política monetária em julho (ou, mais provavelmente, em setembro) se a guerra se prolongar. Dado o nível de incerteza o BCE faz bem em continuar a decidir caso a caso, em cada reunião, depender dos dados disponíveis e sem percurso de taxas pré-definido. O que tiver de ser, será, como resumiu Lagarde de forma sábia.

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