Cidades do Futuro: IA e o Impacto da Mobilidade Elétrica na Rede Urbana

  • Hugo Morais
  • 17 Junho 2026

A transição para a mobilidade elétrica não depende apenas das baterias. Exige cidades inteligentes, infraestruturas adaptadas e inteligência artificial para coordenar todo o ecossistema.

A transição para a mobilidade elétrica requer uma mudança sistémica que vai muito além da alteração de um motor de combustão interna para um motor elétrico alimentado por baterias. Esta mudança requer uma visão alargada que considere a gestão inteligente das redes elétricas, a gestão otimizada do carregamento (e descarregamento) em tempo real, a previsão da procura, a gestão de frotas com requisitos distintos, a manutenção preditiva, a coordenação com fontes de produção baseadas em energias renováveis e voláteis, assim como a capacidade de atender às necessidades dos utilizadores sem que as suas rotinas sejam significativamente alteradas.

Para implementar esta visão, a inteligência artificial (IA) é crucial e pode funcionar como um amplificador dos potenciais benefícios da mobilidade elétrica, suportando a tomada de decisão dos operadores, gestores de infraestrutura e utilizadores finais.

São várias as aplicações onde a IA é usada ou pode vir a ser usada, nomeadamente na definição dos perfis de carregamento dos diferentes veículos e padrões de utilização dos carregadores, na gestão dinâmica do carregamento e descarregamento dos veículos, contribuindo para a preservação das baterias e tirando proveito da variação dos preços da energia. Olhando para as necessidades das empresas que operam frotas de veículos elétricos, a IA é usada para otimizar as rotas, maximizando a autonomia e minimizando os custos operacionais e o tempo de operação.

Algoritmos de IA são também utilizados para melhorar a manutenção preditiva, analisando milhares de dados provenientes de sensores instalados nos veículos para antecipar falhas antes que estas ocorram, reduzindo o tempo de imobilização e os custos associados à operação dos veículos. Outra aplicação emergente da IA é na condução autónoma, ainda em desenvolvimento, que depende fortemente de modelos treinados em grandes volumes de dados de tráfego real, reconhecimento do ambiente envolvente e tomada de decisão em tempo real.

Contudo, para que a mobilidade elétrica possa atingir todo o seu potencial, é fundamental considerar uma abordagem integrada ao nível do planeamento urbano. As cidades terão um papel central nesta transformação, uma vez que concentram uma elevada percentagem das deslocações, dos utilizadores e das infraestruturas necessárias ao funcionamento dos sistemas de mobilidade. A eletrificação da mobilidade exige que o desenho das cidades seja repensado considerando a localização estratégica das infraestruturas de carregamento, a capacidade da rede elétrica existente, a disponibilidade de espaço público, os padrões de deslocação e as necessidades específicas de diferentes utilizadores. A IA pode desempenhar um papel preponderante na definição de estratégias que integrem todas estas dimensões.

O planeamento urbano deverá evoluir de uma abordagem baseada exclusivamente na expansão da rede viária para uma abordagem integrada de mobilidade, energia e dados. A instalação de uma infraestrutura de carregamento ampla, acessível e interoperável será um elemento essencial para acelerar a adoção dos veículos elétricos, permitindo diferentes soluções para diferentes necessidades: carregamento lento associado a estacionamento prolongado, carregamento rápido em zonas de elevada procura associada a tempos de estacionamento curtos, soluções dedicadas a frotas profissionais, carregamento de veículos pesados e integração com soluções de micromobilidade elétrica. A existência de incentivos adequados e de políticas públicas orientadas para o desenvolvimento desta infraestrutura poderá funcionar como um motor para a transformação dos sistemas urbanos de mobilidade.

Esta transformação deve também considerar a integração entre mobilidade elétrica privada e sistemas de transporte público. A mobilidade do futuro não deverá ser baseada apenas na substituição de veículos individuais convencionais por veículos elétricos, mas sim numa utilização mais eficiente dos diferentes modos de transporte. A coordenação entre veículos elétricos privados, transportes públicos eletrificados, sistemas partilhados, bicicletas e outros meios de micromobilidade permitirá reduzir congestionamentos, melhorar a qualidade do ar e aumentar a eficiência energética das cidades. Um sistema integrado de carregamento, capaz de servir diferentes formas de mobilidade e coordenado com os horários, procura e disponibilidade dos transportes públicos, permitirá uma utilização mais eficiente da infraestrutura elétrica e urbana.

Neste contexto, a inteligência artificial assume um papel fundamental no desenvolvimento de cidades adaptadas à mobilidade elétrica. A IA permitirá analisar grandes volumes de dados provenientes de veículos, carregadores, redes elétricas, sistemas de transporte e utilizadores, criando modelos capazes de prever padrões de mobilidade e antecipar necessidades futuras. Estas capacidades serão essenciais para apoiar o planeamento urbano, permitindo identificar os locais ótimos para instalação de carregadores, prever a evolução da procura de energia associada à mobilidade elétrica e avaliar o impacto de diferentes políticas de transporte.

Além disso, sistemas inteligentes baseados em IA poderão operar e gerir dinamicamente a interação entre a rede elétrica e os veículos, promovendo estratégias de carregamento inteligente e tecnologias como o Vehicle-to-Grid (V2G), onde os veículos podem funcionar como elementos ativos do sistema energético. Esta coordenação permitirá aumentar a integração de fontes renováveis, reduzir picos de consumo e transformar a mobilidade elétrica num elemento de flexibilidade para as redes do futuro.

Assim, a simbiose entre planeamento urbano holístico, infraestrutura de carregamento inteligente, transportes públicos eletrificados e sistemas de decisão baseados em inteligência artificial será determinante para criar cidades mais eficientes, sustentáveis e resilientes. A mobilidade elétrica deixa assim de ser apenas uma mudança tecnológica nos veículos e passa a representar uma transformação profunda na forma como as infraestruturas e cidades são planeadas, operadas e vividas.

  • Hugo Morais
  • Investigador no INESC ID e Professor no Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores do Instituto Superior Técnico

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Cidades do Futuro: IA e o Impacto da Mobilidade Elétrica na Rede Urbana

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião