Ciência e Inovação: a política económica que Portugal ainda precisa de fomentar

  • Pedro Pinheiro
  • 10 Novembro 2025

Se Portugal quiser manter o ritmo de crescimento e resistir às pressões externas, precisa de transformar a investigação e a inovação de áreas acessórias em prioridades estruturais.

Num contexto em que o equilíbrio orçamental se impõe como prioridade e o FMI alerta para os desafios de manter o impulso económico após 2026, é crucial refletir sobre o papel que o investimento em investigação, inovação e ciência deve desempenhar na estratégia de crescimento de Portugal. Mais do que um custo, a aposta nestas áreas representa uma alavanca essencial para o desenvolvimento sustentável, a competitividade e a autonomia económica do país.

O FMI sublinha a necessidade de garantir a eficiência da despesa pública e de reduzir isenções fiscais para compensar os efeitos duradouros dos cortes no IRS e IRC. Todavia, a solução não pode residir apenas na contenção devendo passar também pela transformação da estrutura produtiva, onde a ciência e a inovação se podem tornar motores de produtividade e valor acrescentado. Reduzir a despesa sem investir no conhecimento seria, em última instância, comprometer o futuro para equilibrar o presente.

Portugal apresenta hoje um desempenho económico pautado por um equilíbrio das contas públicas, o FMI projeta que o país encerre o ano com um excedente orçamental de 0,2 % do PIB este ano e um saldo orçamental de 0 % em 2026 se não forem tomadas novas medidas. No capítulo do crescimento, a instituição estima uma expansão económica de 1,9 % em 2025 e de 2,1 % em 2026. Estes números aparentam que o país está num “bom caminho” no que diz respeito às finanças públicas. No entanto, este progresso só será sustentável se for acompanhado de uma estratégia que privilegie o crescimento inteligente, ou seja, assente na investigação científica, na inovação tecnológica e na valorização do capital humano, como determinantes do crescimento do valor acrescentado no contexto da economia portuguesa.

Investir na ciência não pode ser apenas financiar laboratórios e projetos, devendo passar essencialmente por criar ecossistemas de inovação que aproximem instituições de ensino superior, empresas e setor público, favorecendo a transferência de conhecimento e a criação de soluções tecnológicas aplicadas à economia real.

Ao mesmo tempo, é imperativo melhorar o acesso ao financiamento para a investigação e reduzir a burocracia que ainda trava o avanço de muitas iniciativas científicas e empresariais. A investigação de ponta exige previsibilidade e confiança institucional, sendo estes dois fatores que dependem de políticas estáveis e de uma visão estratégica de longo prazo. A ciência não floresce em ambientes de incerteza, e a inovação não emerge de ciclos curtos de investimento.

Além disso, a educação desempenha um papel determinante neste processo. O FMI reconhece a importância de continuar a melhorar os resultados educativos, e Portugal deve ir mais longe formando cidadãos capazes de pensar criticamente, criar, e aplicar o conhecimento em contextos novos e complexos. Só assim a investigação e a inovação se traduzem em valor económico e social.

Em suma, a consolidação orçamental não pode significar retração, mas reorientação inteligente dos recursos públicos. A estabilidade das contas é fundamental, mas sem um investimento contínuo em ciência e inovação essa estabilidade será apenas aparente. O verdadeiro equilíbrio económico constrói-se com base no conhecimento, sendo este o único activo que se multiplica quanto mais se partilha.

Se Portugal quiser manter o ritmo de crescimento e resistir às pressões externas, precisa de transformar a investigação e a inovação de áreas acessórias em prioridades estruturais. Porque o crescimento sustentável não se impõe por decreto nem por austeridade.

  • Pedro Pinheiro
  • Presidente do ISCAL

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