Como a IA está a impactar o início de carreira

  • Cristina Romariz
  • 19 Junho 2026

Estaremos a despedir-nos dos juniores – pelo menos, tal como os conhecemos hoje?

A estrutura hierárquica das organizações tem seguido o formato de uma pirâmide, dividida, no mais das vezes, em três grandes níveis: júnior, intermédio e sénior. Este modelo de carreira, no qual a entrada na profissão se faz pela base, reflete uma progressão lógica de responsabilidades, competências e autonomia.

Historicamente, o júnior é um aprendiz. Executa, no mais das vezes, tarefas repetitivas e de menor valor acrescentado (como pesquisa, revisão de documentos ou compilação e análise preliminar de dados) como ferramenta pedagógica. Desenvolve-se, assim, profissionalmente num modelo de mentoria, no qual aprende a profissão “por osmose”, isto é, pela exposição ao trabalho dos mais experientes.

A inteligência artificial (IA) veio, no entanto, desafiar a estrutura hierárquica convencional dentro das empresas e a própria aprendizagem da profissão. À medida que a IA automatiza tarefas rotineiras e de nível mais básico – ao promover a produtividade e a eficiência dos profissionais juniores – também coloca em risco o modelo de aprendizagem on the job (isto é, a aprendizagem no posto de trabalho). Isto conduz a uma progressiva redução na contratação de profissionais juniores em vários setores.

Estaremos a despedir-nos dos juniores – pelo menos, tal como os conhecemos hoje?

Ao contrário das revoluções industriais que a precederam, a Quarta Revolução Industrial impacta diretamente a geração atual, e não apenas as futuras. Os profissionais juniores de hoje ingressam no mercado de trabalho já confrontados com a realidade da IA.

Por um lado, a substituição das posições iniciais na profissão por ferramentas e sistemas de IA pode implicar uma diminuição no recrutamento de juniores. Este fenómeno, levado ao extremo, pode vir a exponenciar o desemprego jovem, o que intensifica o número dos “nem-nem” – aqueles que nem estudam, nem trabalham. Acresce que também os profissionais intermédios e seniores passam a depender menos do apoio júnior, ao se servirem da mesma IA como acelerador da produtividade individual.

No limite, a tradicional pirâmide corre o risco de perder muita da base e transformar-se numa espécie de losango, estreito nas camadas júnior e sénior, e mais distendido no nível intermédio.

Por outro lado, um dos impactos mais significativos das ferramentas de IA dá-se na erosão da aprendizagem prática tradicional. Neste novo paradigma, o júnior delega à IA o trabalho de base; aprende a dominar o prompting (ou seja, a formular pedidos precisos para obter os resultados desejados da IA), mas perde – ou faz por perder – a oportunidade de estudar as matérias e executar os processos subjacentes. Deste modo, os juniores enfrentam o risco de nunca virem a desenvolver plenamente competências técnicas e analíticas essenciais, o que pode comprometer o aprofundamento e a solidez do conhecimento profissional.

Considerando este contexto e a longo prazo, surge uma questão inevitável: que tipo de seniores serão formados e que exigências lhes serão impostas a jusante?

Num mercado em mutação, veremos emergir novos modelos de entrada na profissão, com impactos transversais, das funções à retribuição, passando pela progressão na carreira e pela formação. Provavelmente, redefinir-se-á o que significa ser júnior, e essa metamorfose reclama tanto do direito do trabalho como da educação escolar e universitária. Exige-se também às organizações que repensem os seus modelos de integração e de formação.

O outrora “aprendiz” será cada vez menos um executor de tarefas mecânicas, e talvez mais um curador, um revisor crítico ou um gestor de outputs de IA. As novas competências exigidas à entrada também vão ser (e já vão sendo) outras: literacia em IA, pensamento crítico aplicado à validação de resultados, capacidade de síntese e de comunicação.

A IA está a transformar significativamente a forma como ingressamos no mercado de trabalho, evoluímos dentro das organizações e desenvolvemos as competências que vão ser essenciais no futuro. Este requiem pode muito bem ser um momento de transformação e renascimento, e não necessariamente um adeus.

  • Cristina Romariz
  • Advogada da Cuatrecasas

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