Como é que eles fizeram isto?

  • Nuno Presa Cardoso
  • 15 Junho 2026

Quando tudo é possível, nada parece especialmente impossível. Mas há uma pergunta que vale a pena fazer. Será que esta facilidade produz encantamento?

O gorila começa a tocar bateria.
E, durante alguns segundos, toda a gente faz a mesma pergunta: Como é que eles fizeram isto Durante décadas, era esta questão que também tornava a publicidade mágica.

Quando apareceu o famoso anúncio da Cadbury, em 2007, milhões de pessoas ficaram suspensas entre várias hipóteses. Seria um gorila amestrado? Um ator extraordinário dentro de um fato? Computação gráfica desconhecida? Não interessava verdadeiramente. O regozijo estava na dúvida. O mesmo acontecia quando víamos pessoas a atravessar paredes, carros a transformarem-se em robots ou criaturas impossíveis sentadas à mesa com seres humanos. A magia não estava apenas no resultado. Estava na suspeita de que alguém tinha descoberto uma forma engenhosa de enganar os nossos olhos.

Durante décadas, a publicidade foi também uma indústria de alquimistas. David Fincher, Ridley Scott e Michel Gondry fizeram anúncios. Mas não eram apenas realizadores. Eram mestres de prestidigitação visual. Cada filme escondia truques, maquetes, cabos invisíveis, horas de pós-produção e equipas inteiras dedicadas a resolver problemas que ainda não tinham solução. Havia uma espécie de heroísmo na produção. E talvez por isso, nos corredores das agências e das produtoras, a frase mais repetida fosse sempre a mesma:

Como é que vamos fazer isto? E não “Em quanto tempo vamos gerar isto?”.
Fazer.

A diferença entre os dois verbos é maior do que parece. Porque a inteligência artificial resolveu um problema extraordinário: tornou quase tudo possível. E, ao fazê-lo, eliminou uma parte importante do mistério. Hoje, perante uma imagem impossível, a nossa primeira reação já não é perguntar “como é que fizeram isto?”. É assumir que alguém escreveu um prompt. Antes queríamos saber como era possível. Agora queremos saber qual foi a ferramenta. A dúvida desapareceu. E com ela desapareceu uma forma particular de admiração.

O mais curioso é que a tecnologia sempre prometeu aproximar-nos do espanto. Mas, paradoxalmente, talvez esteja a banalizá-lo. Quando tudo é possível, nada parece especialmente impossível. Nunca foi tão fácil produzir textos, imagens, filmes ou mundos inteiros. Uma pessoa sozinha consegue hoje fazer, em horas, aquilo que há dez anos exigia dezenas de especialistas e semanas de trabalho. É uma conquista extraordinária. Um portal maravilhoso que se abre diante de nós.

Mas há uma pergunta que vale a pena fazer. Será que esta facilidade produz encantamento?

Porque o deslumbramento nunca esteve apenas no resultado. Estava no esforço invisível. Na solução absurda encontrada às três da manhã. No realizador que inventava um mecanismo capaz de criar chuva porque ainda não existia software capaz de a simular. No diretor de arte que construía cidades em miniatura. No técnico de efeitos especiais que passava meses a aperfeiçoar um truque que apareceria durante três segundos. Sabíamos que existia um ser humano por trás de cada milagre. E talvez seja isso o que realmente nos emociona.

Não a perfeição.

Mas a improbabilidade.

No fundo, a publicidade sempre viveu do mesmo átomo que alimenta a magia, a religião e até a arte: a sensação de que alguém conseguiu fazer algo aparentemente impossível. Hoje obtemos resultados cada vez mais impressionantes. Mas já quase ninguém pergunta: Como é que eles fizeram isto? Talvez aí esteja a perda irreparável. Porque uma civilização que deixa de admirar os truques acaba por deixar de admirar os magos.

E o problema nunca foi o desaparecimento da magia.

É o desaparecimento do entusiasmo.

  • Nuno Presa Cardoso
  • Partner e chief creative officer da Nossa

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