Como evitar o risco da inclusão meramente simbólica nas empresas

  • Rui Rocheta
  • 26 Junho 2026

O 'Pride Month' é uma oportunidade para celebrar e dar visibilidade à comunidade LGBTQIA+, e não uma ação isolada de 'marketing'.

O Pride Month continua, sem dúvida, a assumir um papel importante na promoção da visibilidade e dos direitos da comunidade LGBTQIA+. Todos os anos, durante o mês de junho, multiplicam-se as campanhas e as mensagens de apoio à diversidade por parte das empresas. Contudo, coloca-se aqui uma questão central: até que ponto este compromisso com a inclusão e a diversidade se espelha em mudanças reais nas organizações?

Existe um fenómeno conhecido como rainbow washing que expõe, precisamente, essa diferença entre comunicação e ação. Um estudo da Harvard Business Review demonstrou, aliás, que os colaboradores LGBTQIA+ sentem menor pertença organizacional quando o apoio das empresas surge apenas durante o Pride Month.

Nesse sentido, importa refletir sobre o verdadeiro papel das organizações na construção de culturas inclusivas. Afinal, a perceção de uma inclusão meramente simbólica pode comprometer seriamente a confiança dos profissionais e a credibilidade das marcas.

Quando a inclusão se torna apenas uma campanha sazonal do Pride Month

O rainbow washing descreve situações em que as organizações utilizam símbolos, mensagens ou campanhas associadas à comunidade LGBTQIA+, sem que esse posicionamento se faça acompanhar por políticas internas consistentes ou ações concretas. Em muitos casos, o apoio à inclusão limita-se à comunicação durante o Pride Month, desaparecendo do discurso durante o resto do ano.

Naturalmente, as organizações reconhecem a crescente relevância económica e social deste tema. Estima-se, por exemplo, que o poder de compra associado à comunidade LGBTQIA+ seja superior a um bilião de dólares.

Contudo, quando as campanhas se centram apenas no Pride Month, estes esforços podem ser vistos como uma forma de capitalizar a inclusão. O estudo da Harvard Business Review adianta, então, que os participantes LGBTQIA+ estão dispostos a pagar quase 20% mais por produtos de empresas que revelem um apoio consistente à comunidade LGBTQIA+.

Além disso, muitas destas iniciativas são percecionadas como uma resposta à pressão social ou reputacional, mais do que uma expressão de valores genuínos. Consequentemente, consumidores e profissionais estão cada vez mais atentos à coerência entre discurso e prática.

A autenticidade começa dentro da organização

Para evitar a perceção de inclusão simbólica, as empresas devem começar por garantir que os valores inclusivos se refletem, de facto, na sua cultura organizacional. Este passo deve, certamente, anteceder qualquer iniciativa comunicada ao exterior. A coerência entre discurso e prática é decisiva para sustentar a credibilidade corporativa.

O Pride Month é uma oportunidade para celebrar e dar visibilidade à comunidade LGBTQIA+, e não uma ação isolada de marketing. A sua relevância depende, pois, da forma como se articula com compromissos reais assumidos ao longo de todo o ano.

Internamente, essa celebração implica a adoção de políticas concretas e permanentes: canais seguros de denúncia e práticas de recrutamento que promovam a igualdade de oportunidades, por exemplo. Atualmente, este compromisso constitui uma exigência fundamental para qualquer empresa que pretenda construir uma cultura inclusiva.

Ademais, importa criar ambientes de trabalho onde todos os profissionais sintam segurança psicológica para expressar a sua identidade sem receio de discriminação ou exclusão.

A liderança desempenha, igualmente, um papel crucial neste processo. Quando a inclusão fica circunscrita aos departamentos de Recursos Humanos, dificilmente se transforma numa prioridade estratégica de toda a estrutura.

A inclusão pratica-se diariamente

O Pride Month continua, decerto, a ser um momento relevante de consciencialização e defesa dos direitos da comunidade LGBTQIA+. No entanto, o verdadeiro compromisso com a inclusão avalia-se fora das campanhas de junho e das mudanças temporárias de imagem nas redes sociais.

As organizações devem demonstrar coerência entre discurso, cultura e ação. Afinal, os profissionais e os consumidores estão cada vez mais atentos à autenticidade das marcas e à forma como estas traduzem os seus valores em decisões concretas (e coerentes). Com efeito, devemos frisar que a inclusão se edifica diariamente nas práticas internas e na cultura das organizações.

  • Rui Rocheta
  • Chief Regional Officer Southwestern Europe & Latam da Gi Group Holding

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