Como se moldou no Deserto a reforma das empresas familiares
Os EAU são uma monarquia absolutista, mas têm um governo competente, reformador e com espírito de missão focado no que é importante e uma cultura de mobilização coletiva da comunidade empresarial.
Há uma tendência para olhar para os Emirados Árabes Unidos (EAU) como Estados menos desenvolvidos, culturalmente atrasados e que tiveram a sorte de ter petróleo de extração barata. Na realidade, são um exemplo de ambição, esforço e inteligência a planear e executar a longo prazo e, sendo verdade que a riqueza de recursos ajuda, o fundamental é o compromisso, o empenho, a inovação e um esforço intenso e consistente do Estado na execução.
Preocupados com a tradicional dependência dos combustíveis fósseis, os Emirados lançaram nos anos 80 uma estratégia arrojada de posicionamento como a principal ponte entre o Ocidente e a Ásia. Hoje são um destino de escala mundial para negócios, turismo ou comércio servido por um “hub” tremendo ao serviço das duas companhias de bandeira Etihad e Emirates, dentre as melhores e maiores do Mundo. Graças aos fundos canalizados e à rigorosa execução dos planos traçados, o resultado da diversificação não podia ser melhor: de 1974 até hoje, o PIB global aumentou quase 35 vezes de 14,72 para 507,06 biUSD enquanto o peso das exportações de petróleo no PIB caiu de 85% para menos de 30%.
Há menos de cinco anos atrás, os EAU em geral e o Dubai em particular deram-se conta que por trás deste crescimento estava um motor enorme: as Empresas Familiares, em particular as PMEs – 557,000 registadas responsáveis por 70% do emprego, 40% do PIB e 60% do crescimento económico dos EAU. Os Emirados tomam consciência quer da enorme dependência das PMEs e das Empresas Familiares em geral, quer das deficiências estruturais típicas da sua falta de escala e conhecimentos de gestão, governação e organização. Compreendem que esta situação não é compatível com a sustentabilidade do crescimento a longo prazo e os níveis de excelência numa economia que se quer de ponta, exemplar em todos os seus setores de atividade. E os EAU sabem que os desafios estruturais das PMEs e das Empresas Familiares em geral são comuns à generalidade dos países ocidentais e que estes, como Portugal, se limitam a distribuir subsídios financeiros sem que obviamente isso resolva os verdadeiros problemas estruturais.
É neste contexto que o Governo do Dubai, sob patrocínio da Casa Real dos Emirados, se lança na conceção e execução de um modelo inovador de reforço da competitividade e longevidade das Empresas Familiares que se tornou numa referência mundial graças a um programa inteligente de ações de largo alcance, materializadas no Dubai Centre for Family Business, DCFB.
Lançado pelo Dubai Chambers, organização pública dedicada ao fortalecimento de empresas, estímulo de serviços de valor acrescentado inovador (nomeadamente IA) e reforço do acesso a redes de conhecimentos de alto gabarito, o DCFB arrancou com o lançamento de uma ferramenta de diagnóstico e definição de linhas de orientação detalhadas para a governação de empresas familiares “web based”, o Family Business Governance Assessment Tool (FBGAT).
Parte de um “self assessment” e define orientações e ações concretas customizadas para fortalecimento da empresa, como se pode ver no website. Mas o DCFB foi mais longe e mobilizou peritos dos melhores centros de competência internacionais (universidades, assessores profissionais…) para esclarecer os empresários e apoiar a implementação das orientações dos resultados da ferramenta. Esta mobilização faz toda a diferença porque assegura o compromisso das empresas com a execução das recomendações, evidenciando o foco do Governo em ver resultados concretos do seu investimento. Nas palavras de Abdul Aziz Abdulla Al Ghurair, Chairman do Dubai Chambers, “a visão e as orientações decorrentes vêm garantir a sustentabilidade, o crescimento e a continuidade das empresas familiares no Dubai através de estratégias eficazes para uma transição suave de liderança entre gerações sucessivas e promover o conceito de boa governança“.
Graças ao sucesso do FBGAT, o DCFB tem vindo a crescer e lançar novas iniciativas a um .ritmo impressionante, sempre com cariz pragmático e inovador, com destaque para o Programa de Gestão de Empresas Familiares, uma iniciativa de 5 meses desenvolvida em cooperação com uma universidade reputada a nível mundial.
Na inauguração das instalações do Centro, SAR Sheikh Maktoum bin Mohammed bin Rashid Al Maktoum, a segunda figura das Casas Reais dos Emirados, deixou palavras poderosas que ilustram bem a consciência da importância das Empresas Familiares para o Estado e para os EAU em geral:
- “As Empresas Familiares representam um pilar fundamental do processo de desenvolvimento sustentável e uma pedra angular da economia do futuro e garantir o seu crescimento e a sustentabilidade é uma prioridade estratégica e uma parte central da visão de SAR Sheikh Mohammed bin Rashid al Maktoum“ (primeira figura dos EAU).
- “A abertura do Dubai Centre for Family Businesses visa fortalecer o sistema económico que o Emirado fornece para apoiar as Empresas Familiares, desenvolver a comunidade empresarial, estabelecer confiança no ambiente de negócios e aumentar a capacidade do setor para acompanhar os desenvolvimentos globais e garantir um crescimento económico sustentável”.
Em Portugal não se fazem reformas com este alcance. A incompetência e a preguiça do Estado ao longo de décadas tem levado a atirar com dinheiro para cima do setor de Empresas Familiares e PMEs indiscriminadamente e sem qualquer esforço central de estímulo ao seu fortalecimento estrutural. Mas não tem de ser assim, não pode ser assim.
Os EAU são uma monarquia absolutista, mas têm um governo competente, reformador e com espírito de missão focado no que é importante e uma cultura de mobilização coletiva da comunidade empresarial. E em Portugal, isto é possível? Claro que sim. E dia 10 de março temos uma boa oportunidade para o demonstrar.
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