Comprar um jornal por 665 milhões
Nenhum projeto empresarial pode ser desenvolvido quando uma parte importante da organização (as pessoas que a fazem) têm uma agenda contrária aos princípios definidos por quem arrisca investir.
O Grupo alemão Axel Springer foi fundado, entre os escombros de Hamburgo, em 1946. Atualmente conta com cerca de 10 mil colaboradores e detém os principais títulos alemães (Bild e Welt), e os meios internacionais Politico e Business Insider, entre muitos outros. Nesta semana comprou por mais de 665 milhões de euros o inglês The Telegraph.
O Grupo tem desde a fundação uma “constituição” escrita que sustenta os seus valores políticos, a que chama “os princípios essenciais”. Essa “constituição” defende explicitamente a liberdade, a liberdade de expressão, a democracia e o Estado de direito. O extremismo político e religioso é explicitamente rejeitado, a economia de mercado é defendida e a aliança entre a Europa e os Estados Unidos considerada fundamental. O Grupo apoia também o direito de Israel a existir e opõe-se firmemente ao antissemitismo.
Sob a liderança de Mathias Döpfner, CEO e acionista de controlo com o apoio de Friede Springer, a viúva do fundador da editora, as receitas no ano passado foram de €2,2 mil milhões e os lucros atingiram 364 milhões de euros.
Depois da concretização desta ambição antiga de comprar o The Telegraph, este título pode agora ser o porta-aviões que vai conquistar os EUA. O Grupo acredita que há espaço e oportunidade para ser uma referência no jornalismo nos Estados Unidos, impulsionada pela adoção massiva de inteligência artificial, e pela existência de um vazio no mercado. Döpfner refere que há um enorme público insatisfeito no centro-direita, mal servido por uma imprensa mainstream maioritariamente liberal (esquerda) e por outros meios demasiadamente conservadores. Para não lhes chamar outra coisa.
Na altura do anúncio do negócio, Mathias Döpfner disse que o Grupo e o The Telegraph “partilham fortes compromissos com a liberdade, os valores, uma tradição de abraçar e liderar a mudança tecnológica e uma vontade empreendedora de moldar ativamente o futuro. Isto cria uma base sólida para acelerar ainda mais a nossa transformação digital impulsionada pela IA.”
Döpfner tinha afirmado há algumas semanas numa conferência que os títulos da Axel Springer são editorialmente independentes e que os seus jornalistas são livres de criticar o governo israelita e as suas decisões, como qualquer outro. No entanto, acrescentou, deveriam procurar outro emprego se os “princípios essenciais” não lhes agradassem.
“Temos uma política de contratação que não é principalmente inclusiva, é antes exclusiva”, disse Döpfner. “Queremos excluir as pessoas que não se sentem atraídas por estes valores.”
Em Portugal esta vontade seria impossível: nenhum patrão de media admitiria rejeitar a contratação de jornalistas que recusassem os seus princípios essenciais, com os da da Axel Springer (até porque poderia não ter quem contratar).
Embora não haja dados certos sobre o tema, diria que a maioria dos jornalistas portugueses serão mais de esquerda do que de direita; conheço jornalistas comunistas, bloquistas e socialistas, mas ainda não vi um jornalista num jornal nacional de referência que se reveja no Chega; os próximos da IL, do CDS ou do PSD escondem-se atrás do biombo da vergonha de associação ao grande capital. Por outro lado, ouve-se aqui e acolá comentários sobre as redações “muito à esquerda”; li há pouco tempo alguém denominar o Público de “Pravda” (defunto jornal oficial da União Soviética). Os mais liberais (no sentido europeu) queixam-se da imprensa antimercado e antiempresas, e até o Expresso tem sido considerado como “muito à esquerda” ou mesmo “bloquista” e “dominado por uma redação esquerdista”.
Todas estas opiniões contrariam um princípio que tem sido defendido nas redações: a ideologia está para o trabalho como o conhaque. Mas também não podemos ignorar que as decisões e impressões são influenciadas por aquilo que nós somos, a nossa circunstância, o nosso interesse, a nossa agenda. Não há puros nem almas inodoras, asséticas e sem caráter e a isenção é uma abstração imaginada por incautos.
Dito tudo isto, Mathias Döpfner tem razão. Nenhum projeto empresarial pode ser desenvolvido quando uma parte importante da organização (as pessoas que a fazem) têm uma agenda contrária aos princípios definidos por quem arrisca investir. Também não podemos criticar levianamente jornalistas por defenderem o que pensam, mas podemos questionar os editores e patrões de media que não têm a coragem do CEO da Axel Springer, ou os que criticam a imprensa de esquerda e nada fazem para criar ou apoiar uma imprensa de direita liberal e conservadora.
E, sim, fazem-nos falta meios de comunicação que ocupem o espaço do centro civilizado, liberal, europeu, que defendam os mesmos princípios que nos uniram aos EUA, a NATO e um modelo de sociedade que garanta a convivência de pessoas que pensem de forma diferente e ambicionem progresso e igualdade de oportunidades. Nem todos os desejos de uma miss mundo são impossíveis.
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