Congresso Portugal PS
O PS organizou-se nos últimos anos em torno do poder, dispensando o partido. O PS esqueceu-se que os partidos e os seus programas são também as suas bases sociais.
O Congresso do PS é a festa de um enterro. A festa de um novo PS motivado por um qualquer impulso democrático em direcção a um país novo. O enterro de um velho PS forçado pelo desastre democrático de um país velho. O drama do PS reside no facto de que o país mudou enquanto o PS continuou parado no conforto do poder – Elitista, arrogante, hegemónico, dono do Regime. Estranho é que o novo PS é feito pelas mesmas pessoas que fizeram o velho PS. Do mesmo modo que as mesmas pessoas que fizeram o velho PS são hoje os dissidentes do novo PS. Entre o passado e o futuro, o PS anda à procura de uma identidade associada a uma nova função.
Com a certeza das novas convicções, o PS apresenta-se ao país com dois elencos de notáveis e duas direcções ideológicas. Em bom rigor existem aqueles que se mantêm em silêncio e aguardam o desastre do actual Secretário-Geral para virem ao país afirmar uma grande visão política guardada para melhores tempos eleitorais. E esta visão política está à esquerda. Estes notáveis realizaram o Congresso Alternativo no silêncio cínico e calculista. Ao mesmo tempo assistimos à celebração do Congresso Oficial em que as cores suaves de azul não conseguem esconder uma certa deriva ideológica. E esta deriva ideológica está ao centro e está ao centro-esquerda e está ao centro-direita. O novo PS é um objecto político não identificado, mas cheio de ideias gastas e cansadas recicladas no actual vazio de poder e vazio de influência.
Que PS tem o país afinal? Tem um PS responsável que não promove a instabilidade nem ficará em silêncio quando confrontado com os erros do Governo. Os objectivos do PS exigem então um PS aberto, participativo, próximo das pessoas. Os propósitos do poder no PS projectam um partido aberto às novas gerações e em diálogo com o mundo do trabalho, com o universo das empresas, marcado pelo progresso da ciência e da inovação sem esquecer as exigências da cultura. O PS quer ser um partido de oposição, mas de oposição responsável. A circulação do vácuo na palavra política significa que o PS não faz a mínima ideia da sua função e posição na actual configuração da democracia portuguesa. Todo o discurso é uma garantia de estagnação e de pausa política até às próximas eleições que se pretendem para dias distantes. Neste sentido, a grande reunião socialista também se pode chamar Congresso da Resistência ou Congresso da Sobrevivência. O PS sente sem o confessar um défice de legitimidade que o separa da função histórica que alimenta a alma e o espírito de um partido fundador do Regime. E sem esta âncora política, o PS é um peixe voador.
O Secretário-Geral garante ainda aos portugueses que o PS é a grande casa comum de todos os democratas, o partido onde têm lugar todos os humanistas mais os sociais-democratas mais os democratas-cristãos. O PS sectário e dominante parece dar lugar a uma espécie de clube político de largo espectro bem instalado no centro vital com lugar incerto. O PS pretende ser o protagonista de um Portugal com ambição e determinação. O PS pretende ser o Governo de um Portugal capaz de inspirar e de liderar e de se constituir como um exemplo para o mundo. Não deixa de ser extraordinária esta visão política abstracta e absoluta que, incapaz de governar um país, se apresenta como exemplo para o mundo. Quando as democracias no mundo enfrentam perigos reais e populistas, o PS oferece ao mundo a força da esperança política e a confiança no futuro.
A política do PS é uma sequência de falsas ideias sem qualquer tracção à realidade. A política do PS toca por vezes uma dimensão supersónica e absurda. Em política as ideias absurdas têm em geral quatro tipos de protagonistas – Os intelectuais, os demagogos, os oportunistas e os ignorantes. Nesta fase do PS é impossível determinar qual a espécie política dominante. Confesso que o PS é liderado por uma elite peculiar que se caracteriza pela banalidade e pela ausência de autoridade e carisma. O PS é a prova acabada de que a política é hoje o espaço do político normal onde não há lugar para o político notável. Mário Soares não teria lugar no PS que fundou. Uma conclusão realista que é a prova final do drama do PS e que é simultaneamente o drama da democracia contemporânea.
O PS organizou-se nos últimos anos em torno do poder, dispensando o partido. O PS esqueceu-se que os partidos e os seus programas são também as suas bases sociais. O PS perdeu os militantes, perdeu o sector público, perdeu os sindicatos. O PS até perdeu a hegemonia cultural dos intelectuais. O PS procura uma nova base social. Há sempre a inspiração do novo Presidente da República. Há sempre a realidade do país autárquico. O PS é uma cidade suspensa como uma teia de aranha entre dois lugares desconhecidos.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Congresso Portugal PS
{{ noCommentsLabel }}