Construindo o futuro que queremos: um gráfico de cada vez

  • Juliana Barbosa
  • 5 Outubro 2023

Dividamos o problema em partes menores e ponhamos o foco na parte principal: é necessário reduzir as emissões e o setor que mais emite e que mais cresceu em emissões.

Quando eu nasci, há 47 anos atrás, o mundo emitia pouco menos da metade dos gases de efeito estufa que emitiu o ano passado (18,4 gigatoneladas de Dióxido de carbono equivalente (Gton CO2eq). em 1976, versus os 38,5Gton CO2eq. em 2022). Daqui a 27 anos, para limitar o aquecimento global só se poderá emitir menos da metade do que se emitia em 1976 (7,6 Gton CO2eq.), aproximando-se da neutralidade carbónica. O desafio é brutal! É um processo complexo, não linear, multisetorial que envolverá biliões de decisões de agentes privados e públicos. A população cresceu cerca de 93% neste período e deverá continuar a crescer até 2050, podendo chegar a cerca de 10 mil milhões de habitantes. Se alguém tentasse descrever o mundo de hoje nos anos 70, possivelmente seria tomado por louco.

Pois sejamos loucos agora! Vamos imaginar o mundo em 2050: mais sustentável, mais circular, mais orgânico, com mais igualdade de género, mais integrado, mais íntegro, mais alegre, mais verde, mais justo…. Mãos à obra!!

Inspirados no método cartesiano, dividamos o problema em partes menores e ponhamos o foco na parte principal: É necessário reduzir as emissões e o setor que mais emite (38% das emissões em 2022) e que mais cresceu em emissões (190% entre 1976 e 2022): o da geração de eletricidade. Este será, então, o principal alvo. A instalação de nova geração de eletricidade renovável já cresce mais do que a não renovável, mas o ritmo ainda não é suficiente. A tecnologia já existe e é comercialmente competitiva, porém, a instalação e a regulamentação ainda não acompanham a velocidade da inovação em tecnologia. Em 2022, com o lançamento do REPowerEU, os países europeus foram desafiados a desenvolver formas de respeitar os limites ambientais e ao mesmo tempo aumentar a velocidade de implantação da geração de eletricidade renovável. O LNEG, como já disse anteriormente, foi pioneiro e desenvolveu um primeiro trabalho para virmos a fazer isso de maneira concertada com diversos valores ambientais e patrimoniais. Estamos no caminho, mas ainda há muito por melhorar aqui. E também temos de divulgar esta forma de fazer, passar a palavra, construir em conjunto com outros países…

Pensar o território, naquele momento, levou-nos a pensar no micro e no macro conjuntamente. Fomos refletir sobre o consumo de eletricidade no setor industrial em cada município do país. Este esforço resultou num webinar, e agora num relatório, mapeando os consumos por município. Mas, mais do que isso, aquele momento de reflexão também nos ajudou a pensar nos outros setores que ocupam o território, e de que forma as áreas não-naturais (artificializadas) poderiam contribuir para o desafio da redução de emissões. Ao mesmo tempo chegava-nos o desafio de estimar o potencial nacional de geração de eletricidade renovável. Trabalhámos em conjunto, num grande esforço e estimamos um potencial de geração renovável para diversas fontes, olhando à lupa este país. São estimativas e há incertezas, mas há uma mensagem de esperança: a de que Portugal é rico em energia!

Novos desafios surgem. O hidrogénio e sua versatilidade incomparável no mundo da energia, desafia-me a novas reflexões e mais: dos dois lados do Atlântico, numa cooperação técnica Portugal-Brasil. As sinergias e os antagonismos da circularidade e da mitigação climática a nível europeu são o meu foco principal, mas também há ali um roteiro de descarbonização municipal no meu radar. Sinto-me no Ikigai, dos centenários japoneses, “no que nasci para fazer” – E como não? O desafio é grande e para os meus filhos será ainda maior, mas sigo construindo ou à procura de construir um mundo melhor para nós todos, um gráfico de cada vez.

(Nota: esta é uma coluna da iniciativa cívica Women in ESG Portugal para o ECO, e por meio deste canal pretendemos trazer conteúdos ligados ao ESG de forma descomplicada para a sociedade, na voz de mulheres que detêm expertise técnica na área. Para mais informações, aceda ao site: www.winesgpt.com)

  • Juliana Barbosa
  • Investigadora do LNEG e Doutora em Alterações Climáticas e Política de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Nova de Lisboa

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