Continuar ativo depois dos 55 não deveria ser exceção. Deveria ser uma escolha

  • Elena Durán
  • 15 Maio 2026

Num mercado cada vez mais automatizado, ignorar experiência é desperdiçar valor. As marcas que perceberem isto mais cedo estarão também mais preparadas para o futuro.

Há uma ideia silenciosa que continua a moldar o mercado de trabalho: a de que existe uma idade certa para abrandar. E parar. Não está escrita em lado nenhum, mas sente-se nas oportunidades que deixam de surgir, nas portas que se fecham mais cedo do que deviam. E, sobretudo, na forma como olhamos para as pessoas com mais de 55 anos.

Vivemos mais tempo, mas persistimos em associar esta fase da vida ao aproximar do fim de um ciclo profissional. Como se a experiência tivesse prazo de validade. Como se o contributo diminuísse com a idade. Num país cada vez mais envelhecido, esta não é apenas uma visão limitada. É um erro estratégico.

O desafio não é individual, é estrutural. Os sistemas continuam desenhados para uma realidade que já não existe, e isso limita as oportunidades de milhões de pessoas.

A verdade é simples: não existe idade para trabalhar. Para muitos continuar ativo é uma necessidade financeira. Para outros, é uma necessidade emocional, uma forma de manter autonomia, propósito e ligação à sociedade. Em ambos os casos, o impacto é claro: mais bem-estar, mais autoestima, menos isolamento.

Ainda assim, o idadismo persiste. Discreto, mas estrutural. E com ele perde-se talento, conhecimento e uma capacidade única de fazer melhor, difícil de substituir.

É neste contexto que importa criar respostas concretas. Modelos concretos que permitam às pessoas com mais de 55 anos continuar ativas, colocando a sua experiência ao serviço da comunidade, com reconhecimento – também financeiro – e impacto real na sua qualidade de vida. Mais do que responder a necessidades práticas, trata-se de mudar mentalidades e de devolver espaço a quem nunca deixou de ter valor.

Mas são as histórias que melhor explicam esse impacto.

A Gabriela faz parte da Plataforma 55+ desde 2019. Incentivada pelas filhas a manter-se ativa, nunca parou. Hoje, partilha o seu conhecimento em diferentes atividades, incluindo workshops semanais de pintura e azulejaria.

Todas as terças e sextas-feiras, no memmo Alfama, estão disponíveis experiências de Pintura com Prova de Vinhos e de Cerâmica e Azulejaria com a Gabriela ou outros talentos 55+. Um momento onde a criatividade se cruza com a cidade e onde, mais do que ensinar uma técnica, se criam ligações. É uma experiência que ganha outra profundidade precisamente pela história de quem a conduz.

Este é também um exemplo do papel que as empresas podem e devem ter. Integrar talento sénior não é apenas uma escolha responsável. É uma decisão inteligente. Num mercado cada vez mais automatizado, ignorar experiência é desperdiçar valor. As marcas que perceberem isto mais cedo estarão também mais preparadas para o futuro.

Num mundo em constante mudança, talvez esteja na altura de revermos uma ideia ultrapassada: a de que há uma idade certa para parar. Porque continuar ativo não devia ser uma exceção. Devia ser uma escolha.

  • Elena Durán
  • Fundadora e diretora da plataforma 55mais.pt

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