Cristiano não é o mesmo. Já os portugueses não mudaram nada
Uma aposta em como Portugal se iria revoltar com Cristiano Ronaldo após o primeiro jogo no Mundial seria vitória certa. Jogamos sempre mal e enquanto este for o nosso 7, a culpa será sempre dele.
Tenho sempre dificuldade em explicar isto de tão óbvio que me parece. Não interessa se está certo (que não está), mas uma competição mundial de futebol é, antes de mais, entretenimento à escala planetária. As pessoas vão ver jogar os grandes, até quando os grandes estão em baixo. Eu já vi CR7 marcar um poker no Bernabéu e foi lindo, mas também veria de bom grado CR7 no ocaso porque mesmo a desvanecer-se ele é um dos grandes. Não é o Martínez que mete Ronaldo em campo, não é a Federação Portuguesa de Futebol, somos nós, coletivamente, que o exigimos quando lhe damos a importância que damos (medida em likes, títulos, merchandising, o que queira…). E é também por isso que aquele título do jornal inglês The Independent era tão bom: Dez homens e uma estátua.
Onde lemos dez homens (os que se mexem) e uma estátua (o que está parado), talvez a interpretação certa devesse ser: dez homens (que se podiam mexer) e uma estátua (lenda viva do futebol). É que, correndo o risco de parecer mais uma irmã Aveiro, tenho ideia de ter passado os olhos numas quantas notícias sobre as maravilhas dos nossos jogadores no PSG só para mencionar um pequeno grupo de craques que são, aliás, campeões europeus.
Onde estavam estes extraordinários futebolistas, jovens e no auge das suas carreiras, no jogo contra o Congo? É Ronaldo que está velho ou são os outros dez que não sabem jogar em equipa e estão confortáveis como personagens secundários? Na seleção portuguesa, único drible que vejo fazer em condições é às críticas e não é da parte de Ronaldo.
A verdade é esta: Cristiano não é o de antes. Mas os portugueses não mudaram nada. Têm uma floresta murcha em campo, mas só se preocupam com a árvore centenária. A única que nos traz alegria – nem que seja levando o nome de Portugal a todo o lado – é a única que achamos que está doente.
A crítica, forte e desbragada, não deixa de ser idolatria. Paremos de amar Ronaldo e descubramos outros amores. Melhoramos todos!
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