Da defesa à competitividade económica, o dual purpose como novo eixo do capital de risco
A Defesa não é um tema periférico, é um pilar, e o capital de risco a nível internacional já se está a mobilizar para endereçar essa oportunidade.
Em 2025, as startups europeias de Defesa, Segurança e Resiliência captaram 8,7 mil milhões de dólares, o correspondente a mais 55% do que o investimento no ano anterior, dados revelados pelo estudo da Dealroom com o NATO Innovation Fund. Este foco de investimento não é oportunístico, mas uma reconfiguração estrutural das prioridades do ecossistema europeu, alinhada com a instabilidade geopolítica que se sente, desde o início da guerra na Ucrânia.
O ponto essencial desta alteração está no conceito de dual purpose; tecnologias com aplicação civil e militar em simultâneo. Não falamos de investimento militar no seu sentido mais tradicional/puro armamento, mas de plataformas tecnológicas escaláveis, com recurso a inteligência artificial (IA), cibersegurança, computação quântica, sistemas autónomos ou robótica — tecnologias que reforçam a soberania, a par da competitividade económica.
A guerra na Ucrânia, o atual conflito no Médio Oriente, a crescente instabilidade e a pressão para uma maior autonomia estratégica europeia aceleraram esta transformação. O antigo modelo, mais assente em ciclos de inovação longos, dá agora lugar a um ecossistema deeptech, mais ágil, financiado por capital de risco e cada vez mais integrado na base industrial europeia.
Para o nosso país a oportunidade é clara, mas não será de fácil implementação. Temos grandes competências (e muito relevantes) em termos de robótica, de comunicações, de IA e de sistemas autónomos, assim como beneficiamos de empresas exportadoras e talento técnico altamente reconhecido. O que está a faltar? Foco e coordenação estratégica.
Assim, para o capital de risco, isto altera a equação de risco-retorno. A lógica dual, que contempla soluções que respondem a necessidades soberanas, como a vigilância, as comunicações seguras ou as decisões assistidas por IA, mas que têm igualmente aplicações civis (e com vastos mercados com receitas recorrentes), reduz a dependência exclusiva de contratos públicos e cria mais caminhos de monetização. Ao mesmo tempo, o reforço orçamental europeu em defesa, através de ferramentas como o European Defence Fund, introduz mais previsibilidade em termos de capital e, também, de validação institucional.
Podemos, desta forma, compreender a convergência inédita entre a política industrial, a segurança e o capital de risco. Para o nosso país a oportunidade é clara, mas não será de fácil implementação. Temos grandes competências (e muito relevantes) em termos de robótica, de comunicações, de IA e de sistemas autónomos, assim como beneficiamos de empresas exportadoras e talento técnico altamente reconhecido. O que está a faltar? Foco e coordenação estratégica. É crucial identificar-se de um ponto vista macro europeu em que tecnologias, aplicações e setores Portugal deve apostar tendo em conta as suas valências e vantagens competitivas; os recursos são demasiados limitados para “dispararmos” em todos os sentidos. Poderemos tornar-nos num hub de excelência europeu em um ou dois domínios tirando partido de algumas características únicas e distintivas que temos (e.g. caminho trilhado pela Tekever, dimensão da nossa ZEE, entre outros), mas isso requer uma estratégia bem clara e coordenada externa e internamente.
A Europa está a consolidar o setor e os polos de investimento estão a ganhar massa crítica; ao mesmo tempo, a competição tanto por talento, quanto por capital intensifica-se. Se Portugal se quiser posicionar neste ciclo, é urgente alinhar políticas públicas e instrumentos financeiros. A Defesa não é um tema periférico, é um pilar, e o capital de risco a nível internacional já se está a mobilizar para endereçar essa oportunidade.
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