Da geopolítica da energia ao biometano: a vantagem estratégica dos recursos locais

  • Teresa Ponce de Leão e Adriana Reais Pinto
  • 23 Março 2026

Soluções frequentemente tratadas como periféricas começam a assumir importância, como o biometano.

Nos últimos anos, a energia regressou ao centro da geopolítica. Não apenas como mercadoria, mas como instrumento de poder, dependência e influência.

A guerra na Ucrânia expôs de forma clara a vulnerabilidade energética europeia. Durante décadas, uma parte significativa do abastecimento de gás natural da Europa assentou numa relação relativamente estável com a Rússia. Quando essa relação se rompeu, tornou-se evidente a exposição do sistema energético europeu a choques geopolíticos. A crise energética de 2022 tornou evidente algo que foi subestimado durante demasiado tempo: segurança energética e política externa são duas faces da mesma moeda.

Os acontecimentos recentes mostram que a transformação em curso vai muito além dessa crise. Grandes economias estão a integrar cada vez mais a transição energética nas suas estratégias industriais e de segurança nacional. Ao mesmo tempo, a China reforça a sua posição em cadeias de valor críticas para o futuro energético. Essa realidade continua hoje a moldar decisões estratégicas em várias regiões do mundo: da reconfiguração das rotas globais de gás e petróleo, à crescente competição por minerais críticos e tecnologias essenciais à descarbonização. O papel crescente dos países do Golfo na redefinição dos mercados energéticos, reforça a mesma tendência: a energia é um instrumento central de política internacional.

À medida que o mundo acelera a transição energética, uma nova dependência torna-se cada vez mais evidente na corrida global: a dos recursos e materiais que sustentam as tecnologias da descarbonização.

Neste contexto, a posição europeia revela uma tensão difícil de ignorar. Posiciona-se como líder normativa da transição energética – e esse papel é relevante. Mas liderança regulatória sem autonomia material tem limites. E isso ficou novamente evidente no Conselho de Energia de 16 de março, quando a Comissão Europeia reconheceu que a UE enfrenta uma “crise de preços” desencadeada pelo conflito no Médio Oriente, sublinhando que, apesar de não existir uma crise de abastecimento, a Europa continua profundamente exposta a choques externos nos mercados de gás. A resposta anunciada – medidas direcionadas e de curto prazo, apoiadas na maior integração de renováveis face a 2022 – ilustra bem essa vulnerabilidade.

A capacidade de cada país transformar os seus próprios recursos em energia, ganha, portanto, uma relevância estratégica renovada. Soluções frequentemente tratadas como periféricas começam a assumir importância, como o biometano.

Produzido a partir da purificação do biogás gerado na digestão anaeróbia de resíduos agrícolas, urbanos e industriais, o biometano é um gás renovável de origem doméstica que pode ser injetado nas infraestruturas de gás existentes.

A experiência de vários países europeus demonstra que o sucesso deste setor depende sobretudo da coerência das políticas públicas. A Dinamarca integrou o biometano de forma estrutural no sistema de gás, com forte participação do setor agrícola e incentivos estáveis. A França desenvolveu rapidamente o setor através de cooperativas agrícolas, valorização de resíduos locais e mecanismos claros de apoio à injeção na rede. A Alemanha, pioneira no biogás, evoluiu progressivamente para a produção de biometano e para soluções de flexibilidade energética.

Portugal dispõe de recursos relevantes — efluentes pecuários, resíduos agrícolas, resíduos orgânicos urbanos, lamas de ETAR e subprodutos agroindustriais — particularmente adequados à produção de biometano. Contudo, o setor permanece numa fase inicial devido à complexidade regulatória, à indefinição sobre o enquadramento do digestato, ausência de incentivos estáveis e limitada articulação entre políticas energéticas, agrícolas e de gestão de resíduos.

O biometano gera benefícios sistémicos que vão além da energia produzida. Contribui para a segurança energética, valoriza resíduos orgânicos, apoia a agricultura sustentável através da produção de fertilizantes orgânicos, reduz emissões de metano e pode dinamizar cadeias de valor na bioeconomia rural.

Para Portugal, o avanço deste setor exige três prioridades estratégicas: um quadro regulatório claro e previsível, maior integração com o setor agrícola e facilitação da injeção de biometano na rede de gás. Num país fortemente dependente de importações energéticas, investir neste setor não é apenas desejável: é um passo estratégico para garantir autonomia num contexto internacional cada vez mais volátil.

Nota: esta é uma coluna fruto da parceria entre a Women in ESG Portugal e o Mulheres na Energia para o ECO. Por meio deste canal pretendemos trazer conteúdos ligados ao ESG e Energia de forma descomplicada para a sociedade, na voz de mulheres, de gerações diferentes, que detêm expertise técnica na área.

 

  • Teresa Ponce de Leão
  • Presidente LNEG
  • Adriana Reais Pinto
  • Especialista em políticas de transição energética e sustentabilidade, Conselheira na Women in Renewables Alliance

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