Da pegada de carbono à pegada de confiança – a nova responsabilidade nas entregas urbanas

  • Francisco Castanheira
  • 1 Setembro 2025

A conveniência imediata tem um custo coletivo. E esse custo já não é apenas ambiental, mas também social e ético. Chegou o momento em que devemos repensar a forma como fazemos chegar bens às pessoas.

Nos últimos anos, temos vindo a assistir a uma verdadeira revolução nos hábitos de consumo. O crescimento exponencial do e-commerce e das plataformas de entrega de refeições prontas alterou profundamente a forma como vivemos, trabalhamos e nos alimentamos.

Um clique no smartphone e, em poucos minutos, temos à porta de casa tudo o que antes exigia uma deslocação: desde a roupa ao jantar, até às compras do supermercado. Mas o que importa nunca esquecer é que este crescimento tem de vir acompanhado de uma maior responsabilização para temas de elevada importância, como o da pegada de carbono dessas entregas rápidas e constantes, ou a mobilidade nas localidades urbanas.

A conveniência imediata de uma compra é importante para o consumidor e, satisfazer essa exigência, é também importante para o comerciante. No entanto, a mobilidade e a proteção do ambiente não pode ser esquecida. Quando as plataformas de entrega de comida chegaram ao país, o mais frequente era serem entregues com motas a combustão. Hoje, é cada vez mais frequente haver uma redução da área de entrega por cada estafeta, que passa a poder trabalhar com motas elétricas ou até mesmo bicicletas elétricas.

A conveniência imediata tem um custo coletivo. E esse custo já não é apenas ambiental, mas também social e ético. Por isso já chegou o momento em que devemos repensar a forma como fazemos chegar bens às pessoas. O e-commerce não irá decrescer nos próximos anos – aliás, dados da Forrester e da Statista apontam para um crescimento de 8,9% ao ano, nos próximos quatro anos. Assim, parece-me evidente que a responsabilidade pelo impacto criado não pode nem deve recair apenas sobre os consumidores. As empresas que operam neste ecossistema precisam de assumir compromissos sérios para passarem da simples neutralização da “pegada de carbono” para a construção de uma “pegada de confiança”.

O que significa isto na prática? Significa pensar a logística urbana de forma integrada, sustentável e com visão de longo prazo. Investir em veículos elétricos ou modos suaves de transporte é essencial, mas não suficiente. É preciso planear zonas de carga e descarga bem definidas, reduzir o número de entregas desnecessárias, fomentar pontos de recolha comuns, e, acima de tudo, garantir que o crescimento do comércio digital não domina o bem-estar urbano nem compromete os objetivos climáticos.

Criar uma pegada de confiança significa também proteger o futuro do planeta e das pessoas. Significa reconhecer que cada entrega deve ser parte de uma cidade mais habitável, e não um obstáculo à sua sustentabilidade. Que cada embalagem entregue é também um compromisso com a redução do desperdício. Que cada quilómetro percorrido deve ser pensado para respeitar o espaço público, o ambiente e as gerações futuras.

Numa era em que a confiança é um bem tão valioso como a rapidez, as marcas que liderarem esta transição serão reforçadas. Já não basta ser eficiente, é preciso também ser responsável, e essa responsabilidade começa na forma como escolhemos entregar o que prometemos.

  • Francisco Castanheira
  • CEO da Delivery Express

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