Da polarização à insularidade: como chegámos aqui
Num mundo que se fecha, abrir é um ato de coragem. E talvez seja também um ato de inteligência.
Nos últimos dois anos, sinto que os acontecimentos me ultrapassam a cada momento. À cascata noticiosa gerada pela Administração Trump acrescem milhares de horas de podcasts, documentários e programas de opinião que, quando consumidos com dois ou três dias de atraso, parecem já reportar sobre temas do século passado. O ciclo noticioso deixou de ser uma vertigem para se tornar um caleidoscópio, a cada instante, uma nova configuração, uma nova urgência, um novo escândalo.
Do lado da ficção, a coisa não melhora. As centenas de episódios por ver de séries aclamadas pela crítica e pelos nossos amigos, e pelos nossos colegas, e pelo algoritmo provocam uma ansiedade surda, quase culpada, por nos atrevermos a dormir sete horas por noite.
Numa primeira e talvez ingénua análise, dir-se-ia que a pluralidade e a capilaridade com que o conteúdo nos chega nos tornariam mais abertos a novas realidades e mais conscientes do “outro”. Mas segundo a última edição do Barómetro de Confiança da Edelman — Trust Amid Insularity, para o qual foram entrevistadas 34.000 pessoas em 28 países, o que se verifica é precisamente o oposto.
Desde 2023, a pandemia, o custo de vida, a discriminação, a geopolítica e a desinformação acumularam pressões que empurraram as sociedades desenvolvidas para uma polarização crescente. Essa polarização aprofundou-se num ressentimento difuso face ao sistema e 2026 é, segundo a Edelman, o ano da insularidade: uma retração para círculos fechados de confiança. O trajeto é claro e assustador: Polarização → Ressentimento → Insularidade.
Os números do estudo confirmam esta tendência com uma clareza desconfortável. Eis o que os dados nos dizem:
7 em cada 10 pessoas desconfiam de quem é diferente. Este é provavelmente o dado mais perturbador do estudo: 70% dos inquiridos dizem estar hesitantes ou completamente indisponíveis para confiar em alguém diferente de si, seja por valores, fontes de informação, cultura, estilo de vida ou forma de encarar os problemas sociais. Não estamos a falar de uma minoria radicalizada. Estamos a falar da maioria.
A confiança tornou-se local, próxima e relacional. Perante eventos sociais recentes, as pessoas ganharam confiança nos seus círculos próximos: família, amigos, vizinhos, colegas, o seu próprio patrão, mas perderam-na em líderes governamentais, grandes organizações noticiosas e líderes empresariais estrangeiros. Quanto maior a incerteza, mais a confiança se contrai. O cidadão confia menos no sistema abstrato e mais no contacto direto, no rosto conhecido, na voz familiar.
Só 32% acreditam que a próxima geração estará melhor. Apenas um terço dos inquiridos acredita que os seus filhos viverão melhor do que eles. O indicador desce quatro pontos face ao ano anterior. A confiança está intimamente ligada à ideia de futuro. Quando o futuro deixa de parecer promissor, as sociedades fecham-se, protegem-se e desconfiam mais. É um ciclo que se alimenta a si próprio.
A desigualdade económica cria realidades distintas de confiança. O fosso é nítido: o índice de confiança institucional chega aos 65 pontos entre os grupos de rendimento mais elevado, mas cai para 50 entre os grupos de rendimento mais baixo. A confiança não é apenas cultural ou política, é também económica. Quem sente que o sistema não funciona para si tem menos razões para nele acreditar.
A IA surge como novo fator de exclusão. Nos dados complementares sobre inteligência artificial, a Edelman mostra que os grupos de rendimento mais baixo têm maior receio de ficar para trás: 54% temem não beneficiar verdadeiramente da IA generativa, contra 31% nos grupos de rendimento mais alto. A tecnologia que promete democratizar o conhecimento arrisca aprofundar as mesmas fraturas que já existem.
A desinformação estrangeira tornou-se um medo dominante. O receio de que países estrangeiros contaminem os media nacionais com falsidades para inflamar divisões internas atingiu um máximo histórico: 65% a nível global, mais 11 pontos desde 2021. A informação passou a ser um território de insegurança. Já não se discute apenas se uma notícia é verdadeira, discute-se quem a colocou em circulação e com que intenção.
A insularidade já afeta o trabalho e a economia. As diferenças não mediadas estão a prejudicar a produtividade: 34% dos trabalhadores prefeririam mudar de departamento a reportar a um gestor com valores diferentes; outros 34% admitem que colocariam menos esforço em ajudar um líder de projeto com convicções políticas divergentes. E 42% apoiariam a redução do número de empresas estrangeiras no seu país, mesmo que isso implicasse preços mais altos. A insularidade não é apenas um estado de espírito, tem custos económicos reais.
As empresas e os empregadores são dos atores mais bem posicionados. No índice de confiança institucional, o empregador surge como a entidade mais confiável, com 78%, seguido das empresas em geral, com 64%. Governo e media ficam abaixo, com 53% e 54%, respetivamente. Num contexto de instituições fragilizadas, o local de trabalho ganha uma função que vai muito além do económico. A empresa torna-se um espaço de reconstrução de confiança, talvez o único onde pessoas com valores distintos são obrigadas, pela circunstância, a coexistir e colaborar.
A resposta proposta: trust brokering. O conceito central do estudo é o de trust brokering — a capacidade de pessoas, empresas ou instituições criarem pontes entre grupos que desconfiam uns dos outros. A Edelman define esta prática não como uma tentativa de mudar as pessoas, mas como uma forma de identificar interesses comuns e traduzir realidades distintas umas para as outras. Não se trata de convencer ninguém. Trata-se de criar condições para que o diálogo seja possível.
O diagnóstico da Edelman é sombrio, mas não é fatalista. A insularidade não é um destino inevitável é uma resposta ao medo, à incerteza e à sensação de que o sistema falhou. E se é uma resposta, pode ser contrariada. O antídoto não está nos grandes gestos institucionais nem nas declarações de intenções dos líderes políticos, está nas pequenas pontes do quotidiano: no colega com quem discordamos, mas ouvimos, no vizinho cuja realidade não é a nossa, mas reconhecemos, na empresa que decide, conscientemente, ser um espaço onde a diferença não é uma ameaça, mas uma vantagem. Num mundo que se fecha, abrir é um ato de coragem. E talvez seja também, como o estudo sugere, um ato de inteligência.
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