Da Venezuela à Gronelândia, o regresso brutal das zonas de influência
Somos um gigante que ninguém teme, que todos menosprezam. Se amanhã formos atacados, nem nós sabemos se seremos capazes de reagir. Não podemos aceitar que ameacem a nossa integridade territorial.
Da Venezuela à Gronelândia, o regresso brutal das zonas de influência. O mundo acordou diferente, o Ano Novo trouxe uma troca de liderança no país com maiores reservas de petróleo do mundo: A Venezuela. Se hoje é incerto o que vai acontecer ao regime chavista venezuelano, a verdade é que, com o passar dos dias, a transição democrática parece menos provável.
A forma como Trump tem ignorado Edmundo González ou Corina Machado para além de confrangedora, espelha bem que os interesses por detrás da deposição de Maduro em pouco se deveram ao amor democrático, mas há necessidade de fluir petróleo mais barato na economia americana. Se sobre a legalidade da intervenção militar tenho pouco a dizer, creio que as consequências geopolíticas da operação são diversas e de magnitude relevante. O precedente está aberto. Discordo que a situação venezuelana seja sequer comparável com a ucraniana e a respetiva invasão russa. Contudo, a legitimidade negocial de Putin daqui em diante respira melhor. A doutrina das esferas de influência está de volta. Para a China toda a situação se resume numa sensação agridoce.
Desta vez, Trump deixou claro que na América não vai tolerar nem interferência, nem influência político-económica chinesa. Quando ameaça a Colômbia, Cuba e até o México, da mesma forma que o tinha feito com o Panamá, a ideia é sempre esta: Apertar o cerco económico à estratégia chinesa. Contudo e não obstante, a teoria das influências subjacente abre as portas à definitiva reanexação de Taiwan. Se sob Biden a oposição americana era promessa, com a doutrina Trump essa mesma oposição é, no mínimo, improvável. Para além disto, se muitos achávamos que Donald Trump ameaça, mas não deve ser levado a sério, este momento é a altura certa para rever essas previsões. A promessa foi cumprida.
Na ressaca da detenção de Maduro, as ameaças à Gronelândia adensaram-se, e a Europa deve preparar-se para o que aí vem. Se teremos novidades em menos de um mês, o tempo de reação não é muito. Mette Frederiksen, primeira-ministra dinamarquesa, reagiu, naturalmente, atarantada, mas a reação europeia não pode ser amadora. Um ataque à Gronelândia significaria o fim da NATO e nós, europeus, temos de estar prontos para o dia seguinte. Qual será a reação? Quais serão as sanções? Como nos vamos reorganizar militarmente? Temos de estar prontos para sermos uma terceira potência autónoma. Somo-lo economicamente, mas continuamos incapazes de projetar os nossos interesses.
Somos um gigante que ninguém teme, que todos menosprezam. Se amanhã formos atacados, nem nós sabemos se seremos capazes de reagir. Não podemos aceitar que ameacem a nossa integridade territorial. Temos de criar conjuntamente a nossa doutrina, a nossa forma de poder, de espelhar o nosso poderio económico em respeito militar. O mundo geopolítico de hoje está longe de ser o mesmo do fim da guerra fria, enquanto as nossas elites se comportam da mesma forma. Taiwan, Gronelândia ou Colômbia vão entrar nos nossos dias, nas nossas preocupações, onde a Ucrânia continua a ter lugar. O que vai acontecer é em tudo imprevisível, mas essa é mesmo a maior característica deste novo mundo liderado por Donald Trump. O cronómetro para a nossa preparação está em contagem decrescente e o presidente americano percebe bem que não estamos, de todo, preparados.
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