Das infraestruturas aos ecossistemas: Portugal e a Europa na encruzilhada da inteligência artificial

  • João Claro e Ricardo Bessa
  • 6 Novembro 2025

Qual o papel da Europa , e de Portugal, na construção de um ecossistema competitivo, sustentável e soberano de inteligência artificial?

O debate europeu sobre a inteligência artificial (IA) é, no essencial, um debate sobre competitividade e soberania. A forma como a Europa responder a este desafio definirá a sua capacidade de crescer, de compatibilizar sustentabilidade e inovação e de se afirmar estrategicamente autónoma num mundo em que a velocidade de execução se tornou decisiva.

As infraestruturas de computação terão um papel determinante neste processo, mas não bastam. A inovação em IA depende de um conjunto muito mais amplo de condições. Antes de mais, requer dados acessíveis e de qualidade, espaços de experimentação e validação virtuais e físicos e mecanismos eficazes para integrar modelos em aplicações reais. Exige também atividade científica e inovação no interface entre investigação e indústria, capazes de gerar novas empresas, transformar as existentes e formar o talento e a capacidade tecnológica de que esta transformação económica dependerá. E, não menos essencial, requer uma integração sinérgica com a trajetória europeia de sustentabilidade, para que o progresso digital fortaleça o valor social e ambiental do projeto europeu.

A consolidação de um verdadeiro ecossistema europeu de IA exige mais do que ativos isolados. Depende de dados interoperáveis, como os promovidos pelos European Common Data Spaces, e de ambientes de experimentação regulada com ativos físicos e virtuais (digital twins), como as Testing and Experimentation Facilities (TEFs). Requer ainda plataformas, normas técnicas e enquadramentos regulatórios claros, que facilitem a integração dos modelos em processos e serviços reais – esforços já refletidos no AI Act e nas políticas europeias de interoperabilidade e normalização tecnológica.

Todos estes elementos existem em alguma medida, mas permanecem dispersos e pouco articulados. O desafio europeu é transformá-los num sistema coerente e federado, que una visão, execução e impacto. Enquanto isso não acontecer, a Europa continuará a investir mais em capacidade do que em produtividade – e perderá terreno num domínio onde a escala e a rapidez contam tanto quanto o talento.

A Europa dispõe de uma rede de conhecimento sólida, na qual Portugal participa de forma ativa e qualificada, composta por universidades e centros de investigação de excelência, apoiados em comunidades científicas e tecnológicas com uma longa tradição de cooperação. Essa rede constitui um alicerce essencial para um ecossistema de inovação em IA, no qual investigação, formação e aplicação industrial se reforçam mutuamente.

As instituições que operam na fronteira entre ciência e economia desempenham aqui um papel decisivo: transformar conhecimento em valor e criar as pontes que ligam a investigação ao mercado. Apoiada em competências consolidadas em domínios como a inteligência artificial, cibersegurança, a ciência de dados e os sistemas inteligentes, esta base institucional está hoje preparada para desenvolver soluções tecnológicas em parceria com empresas e promover formação avançada nestas áreas, contribuindo para uma Europa e um Portugal mais integrados, inovadores e competitivos.

Nenhum ecossistema será sustentável se não integrar plenamente a dimensão energética e ambiental. A inteligência artificial é intensiva em recursos e exige uma abordagem que combine eficiência energética, neutralidade carbónica e circularidade. Portugal, com experiência no desenvolvimento de soluções sustentáveis para computação avançada e na integração de energias renováveis, pode e deve assumir um papel ativo na liderança europeia dessa convergência entre competitividade e sustentabilidade.

A partir da sua base de conhecimento, práticas e soluções que conciliam desempenho tecnológico e responsabilidade ambiental, Portugal pode contribuir para reforçar a capacidade da Europa para fazer da transição digital e da transição verde um mesmo movimento estratégico.

O verdadeiro ponto de viragem da IA na Europa e em Portugal estará na capacidade de articular uma cadeia de valor completa – dos dados às aplicações – com as dinâmicas de ciência, inovação, talento e sustentabilidade. Será nesse movimento de ecossistema que se decidirá a diferença entre planear e fazer, entre acumular capacidade e gerar impacto.

  • João Claro
  • Presidente do Conselho de Administração do INESC TEC
  • Ricardo Bessa
  • Investigador do INESC TEC e coordenador da área de sistemas de energia

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