Desporto: um ativo económico que Portugal não pode continuar a subestimar
O desporto é um motor de riqueza, de emprego e de coesão social, e o seu potencial está longe de estar plenamente aproveitado.
Em Portugal, o desporto continua, demasiadas vezes, a ser visto apenas como um espetáculo ou um momento de lazer. É notícia pelas vitórias, pelos clubes e pelos atletas, mas raramente pela sua relevância económica e estratégica. Esta visão redutora ignora uma realidade sustentada por números: o desporto é um motor de riqueza, de emprego e de coesão social, e o seu potencial está longe de estar plenamente aproveitado. E quando dizemos desporto estamos mesmo a dizer Desporto, no qual, entre muitas outras modalidades, está o futebol.
Segundo a consultora PwC, em 2019 o setor gerou cerca de 4,21 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto (VAB), representando 2,3% do VAB nacional, e sustentou 133 mil postos de trabalho, ou seja, 2,8% do emprego total. Em 2021, existiam 14.368 empresas ligadas ao desporto, responsáveis por 1,94 mil milhões de euros em volume de negócios e 732 milhões de euros de VAB. Estes números colocam o Desporto ao nível de setores reconhecidos como estratégicos, mas sem receber o mesmo grau de atenção política ou mediática.
O impacto económico não se resume às empresas diretamente ligadas à prática desportiva. Há cadeias de valor que vão desde o fabrico de equipamentos e tecnologias, à construção e gestão de infraestruturas, à organização de eventos e ao turismo desportivo. O cluster industrial do desporto, por exemplo, movimenta 270 milhões de euros, sendo 70% para exportação. Isto significa que Portugal já vende competitividade desportiva ao mundo, e há margem para expandir esse alcance. Por outro lado, a mesma consultora refere que mais de metade dos jovens entre os 16 e os 24 anos está disposta a pagar para aceder a conteúdos desportivos e de várias modalidades.
O argumento mais sólido para levar o desporto a sério esteja nos custos da inatividade física. Os dados mais recentes sobre a realidade portuguesa, apontam para um encargo anual de 1.000 de euros milhões no Serviço Nacional de Saúde (SNS) diretamente ligado à falta de exercício físico, com 60% desse valor suportado pelo SNS. A isto acrescem 1,6 mil milhões de euros anuais em perda de produtividade devido a absentismo e presencismo. Ou seja, não investir no desporto sai muito mais caro do que investir.
O desporto é também um instrumento de política social. Clubes locais e associações oferecem programas de formação, inclusão de jovens em risco e combate ao isolamento em zonas rurais. Além disso, eventos internacionais — do surf ao golfe, passando pela vela, o basquetebol, a canoagem e o atletismo — não apenas projetam a imagem do país, como geram receitas diretas para hotelaria, restauração e comércio local. Basta pensar no impacto do surf na Nazaré ou do golfe no Algarve para perceber que desporto e economia caminham lado a lado.
Num contexto de envelhecimento demográfico e de pressão sobre a segurança social, encarar o desporto como mero entretenimento é um luxo ao qual Portugal não se pode permitir. Este é um investimento com retorno mensurável, que reforça a saúde pública, a produtividade e as exportações.
A questão não é se devemos investir mais no desporto — é como e com que visão estratégica. Isso implica políticas públicas integradas, incentivos à iniciativa privada e uma maior articulação com setores como o turismo, a educação e a saúde. Sem esta visão transversal, continuaremos a desperdiçar um ativo que, além de formar atletas e criar memórias, pode gerar valor económico e social duradouro.
Portugal não precisa apenas de campeões nas pistas ou nos relvados. Precisa de ser campeão na forma como integra o desporto na sua estratégia de desenvolvimento económico. Até lá, continuaremos a falar de resultados ao domingo e a ignorar, de segunda a sábado, o verdadeiro “jogo” que está a ser jogado.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Desporto: um ativo económico que Portugal não pode continuar a subestimar
{{ noCommentsLabel }}