Do caos à ordem: A Democracia liberal ao estilo Deftones
Só a aceitação das contradições permite compor um sistema político e económico resiliente. A rejeição das falsas dicotomias é também um antídoto contra o populismo.
Volto a escrever sobre filosofia política, pois estes tempos difíceis devem obrigar-nos a recordar os ideais pelos quais vivemos. Aos dias de hoje, assistimos a uma vida pública repleta de descontentamento, onde as pessoas não acreditam ter muito a dizer sobre como são governadas e, mais grave ainda, não confiam no(s) governo(s) para fazer as coisas certas. Só parece que temos uma certeza: a confiança dos cidadãos está em declínio precipitado, sendo que os partidos políticos vão mostrando não ser capazes de fazer/dar sentido à nossa condição, ou seja, não mostram capacidade para aliviar o descontentamento que envolve a sociedade como um todo.
Será então este momento o estertor do nosso sistema democrático liberal? Ou será antes que, apesar das suas trevas, a democracia liberal guarda em si a centelha de nos guiar novamente para o autogoverno e de reacender o sentido de comunidade e de participação cívica sem os quais a liberdade se esvazia?
Faço parte, mesmo remando contra a maré, daqueles que acredita que podemos ser otimistas e de que encontraremos no seio deste sistema político-económico uma nova esperança e caminho para o nosso desenvolvimento enquanto pessoas. E encontro muita desta esperança na música, por incrível que pareça.
Olhemos para os Deftones que esta passada semana lançaram o seu décimo álbum, intitulado de “Private Music”; esta banda norte-americana conhecida pela sua intensidade sonora e pela capacidade de fundir estilos aparentemente irreconciliáveis, pode ou não ajudar-nos a simbioticamente pensar no papel e no futuro da democracia liberal? A provocação pode soar estranha, sobretudo num jornal de economia, mas revela-se engenhosa se aceitarmos que a política, tal como a música, vive do confronto de tensões, da diversidade de ritmos e da necessidade de equilibrar caos e ordem.
A democracia liberal, tal como a música dos Deftones, não é uma melodia simples. É antes uma composição feita de camadas, onde coexistem acordes suaves e explosões ruidosas. Na economia, traduz-se na coexistência entre Estado e mercado, entre regulação e liberdade, entre crescimento e equidade. Do mesmo modo que a banda nunca se deixou aprisionar num único género – oscilando entre o metal alternativo, o shoegaze e o experimental – também a democracia liberal recusa modelos rígidos, adaptando-se ao tempo, às circunstâncias e às pressões sociais.
Um primeiro paralelo surge no papel da diversidade. O pluralismo democrático não é muito diferente da mescla sonora dos Deftones: ambos assumem que a riqueza nasce do confronto entre diferenças. Assim como um baixo pesado pode conviver com vocais etéreos, também na economia liberal coexistem pequenas empresas locais e multinacionais globais, inovação tecnológica e setores tradicionais, crescimento rápido e estabilidade institucional. O risco está em permitir que uma única nota se imponha de forma absoluta, abafando a harmonia. Da mesma forma, quando o populismo ou o monopólio económico sufocam a pluralidade, o resultado é dissonante e empobrecedor. Aqui ecoa Tocqueville, que em “A Democracia na América” já advertia que a vitalidade da democracia depende da coexistência de vozes diferentes e de uma sociedade civil ativa, capaz de contrabalançar o peso do Estado e da maioria.
Outro ponto de ligação reside na tensão permanente entre previsibilidade e surpresa. Nas sociedades liberais, a estabilidade institucional e o Estado de direito funcionam como o compasso que organiza a música. Contudo, é a capacidade de inovação (tecnológica, cultural, económica) que introduz variações inesperadas, tal como uma mudança súbita de tom ou um refrão mais agressivo no meio de uma melodia calma. Sem esta dialética, tanto a música quanto a democracia se tornam assépticos. John Rawls lembrava em “Uma Teoria da Justiça” que as instituições devem garantir previsibilidade e confiança, mas também abrir espaço a que as “contingências do talento e da sorte” possam ser produtivamente integradas, sem minar a coesão social.
Mas há uma ironia: os Deftones floresceram nos anos 1990, precisamente quando a democracia liberal parecia triunfante após a queda do Muro de Berlim. O “fim da História” anunciado por Francis Fukuyama parecia anunciar uma longa melodia sem sobressaltos. No entanto, tal como na carreira da banda, a realidade política mostrou-se mais complexa: crises financeiras, guerras, populismos, crises migratórias e ambientais e uma crescente polarização introduziram ruídos inesperados. A lição é clara: nem a música dos Deftones, nem a democracia liberal, são feitas para o conforto permanente, mas sim para o confronto criativo com a incerteza.
No plano económico, esta analogia é reveladora. As democracias liberais têm vivido sob o mesmo dilema que atravessa qualquer álbum da banda: como equilibrar intensidade e melodia? O crescimento económico sem equidade gera fraturas sociais; a redistribuição sem criação de riqueza asfixia o dinamismo. O desafio é encontrar um ponto de equilíbrio, tal como numa canção onde a guitarra distorcida não apaga o sussurro da voz, mas antes o amplifica. É a lógica de Hayek sobre a ordem espontânea: a liberdade de experimentação gera ruído, mas é desse ruído que emergem padrões, equilíbrios e progresso.
Curiosamente, a estética dos Deftones recusa a simplicidade binária. Não se trata de escolher entre suavidade ou brutalidade, mas de aceitar que ambos são necessários para criar algo memorável. A democracia liberal, pressionada por discursos simplistas de esquerda e de direita, deveria reencontrar nesta lição musical uma inspiração: a complexidade é inevitável e produtiva. Só a aceitação das contradições permite compor um sistema político e económico resiliente. A rejeição das falsas dicotomias é também um antídoto contra o populismo, que procura oferecer melodias fáceis, mas empobrecedoras e deveras monótonas.
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