Drones, ciber e seguros num mundo mais inseguro
António Rito Batalha faz notar que os resseguradores têm proposto também a Portugal e Espanha a adoção de cláusulas mais atuais quanto a ciber e guerra. As exclusões clássicas já não servem.
A Alemanha anunciou o reforço das suas defesas depois de avistamentos de drones junto à fronteira com a Dinamarca1. Até agora, não houve ataques ou danos, mas o episódio levanta questões sobre como os Estados devem responder a novas formas de ameaça que não se encaixam bem nas categorias tradicionais de paz ou guerra.
O uso de drones em fronteiras não é necessariamente um ato bélico clássico, mas pode ser entendido como espionagem, intimidação ou preparação para ações futuras. Essa ambiguidade é cada vez mais comum no cenário internacional, onde as chamadas “operações híbridas” misturam tecnologia, intimidação e pressão política.
Este tipo de incerteza não afeta apenas os governos e militares. Também o setor segurador é confrontado com o desafio de definir o que é “guerra” e o que é “incidente isolado”. Essa definição tem consequências diretas sobre a cobertura de riscos, sobretudo em áreas como o ciberseguro.
Um artigo recente da Insurance Business UK2 sublinhava esta dificuldade: as exclusões de guerra nos contratos de seguro foram escritas para conflitos convencionais. Mas será que continuam válidas quando os ataques podem ser digitais, híbridos ou de origem difícil de provar?
Consultoras como a Marsh McLennan defendem que é urgente atualizar a linguagem contratual3. Afinal, a exclusão de guerra pode deixar empresas sem proteção em cenários onde os prejuízos são enormes — seja por drones físicos, seja por ataques informáticos, ou até por uma combinação dos dois.
O problema central está na atribuição: quem está por trás? Um Estado? Um grupo isolado? Sem clareza, segurados e seguradoras podem entrar em disputas longas e dispendiosas. O caso norte-americano Merck versus Ace já mostrou como tribunais podem rejeitar exclusões mal redigidas em ciberataques.
No caso europeu, a proliferação de incidentes — drones, ataques digitais a hospitais ou sistemas de transporte, falhas em redes elétricas — mostra que a fronteira entre paz, terrorismo, crime e guerra é cada vez mais ténue. Para o setor dos seguros, esta tendência exige uma reflexão profunda.
Portugal, embora distante do episódio alemão, não deve ficar indiferente. Empresas nacionais ligadas a energia, transportes ou finanças podem ser alvos de ameaças “cinzentas” — difíceis de classificar, mas com potencial de causar perdas significativas.
A prioridade para seguradoras e clientes é dupla: rever cláusulas de exclusão e investir em prevenção. Garantir clareza contratual e reduzir ambiguidades pode ser tão importante como instalar sistemas de proteção tecnológica.
Os resseguradores, pela sua experiência internacional, têm proposto também a Portugal e Espanha a adoção de cláusulas mais atuais quanto a ciber e guerra. Essa prática tem sido um guia importante para o mercado nacional, ajudando a evitar que as apólices fiquem desatualizadas num mundo em rápida transformação.
1 Ucrânia: Alemanha vai autorizar abate de drones após novo incidente sexta-feira
2 Where is the line between war and cyber attack – and how will insurers respond?
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