Durante a pandemia, façamos Zoom na prudência

Em tempos de incerteza, a prudência é a melhor conselheira. A adoção imprudente do Zoom como ferramenta de eleição no teletrabalho ameaça agora dar dores de cabeça a governos, escolas e organizações.

Nunca tanta gente usou a internet. E isto é verdade, sobretudo, para os “heróis do sofá”. Aqueles a quem, como eu, lhes basta ficar em casa para contribuírem para o combate à pandemia do coronavírus. Estamos assim há praticamente um mês, sem indicação de quando, ou se, poderemos retomar as nossas vidas normais.

É nestas alturas de nevoeiro que se torna mais difícil, ou impossível, distinguir a linha do horizonte. Como se tem dito, governos e empresas estão a “navegar à vista”. Medidas pensadas hoje ficam obsoletas amanhã. E as famílias lutam desesperadamente para evitarem a perda de rendimentos.

Perante tamanha incerteza, a prudência é a melhor conselheira. Mas, na espuma dos dias, há notícias importantes que se perdem.

Com meio mundo a trabalhar de casa, a aplicação de videochamadas Zoom “explodiu” em popularidade. Empresas passaram a gastar horas e horas em reuniões virtuais e escolheram-na como ferramenta de eleição. Um exemplo: há dias, para uma entrevista, sugeri fazê-la por Skype; remeteram-me para o Zoom por ser a “política da empresa”.

Tudo o que é grátis tem um “preço”. E esse preço começou a ser pago agora, numa altura em que se descobre que, afinal, o Zoom não é assim tão bom. Há relatos alarmantes de partilha massiva de informação com o Facebook (mesmo de quem nem tem conta na rede social), gravações de chamadas expostas na internet e de estranhos com acesso aos nossos emails e fotos de perfil.

Entre as organizações que já “saltaram fora” está a Google (que, refira-se, tem um serviço concorrente) e o Senado norte-americano. E apesar de o Zoom já ter dito que está a resolver estes problemas, são nódoas que custam sempre muito a sair.

Este é um exemplo de adoção imprudente de uma “nova” plataforma, provocada pelo contexto em que vivemos, e que ameaça agora dar dores de cabeça a governos e escolas, escritórios de advogados e a toda a panóplia de organizações que têm recorrido ao Zoom. Não só por escolha mas também por força de obrigação. Consegue imaginar onde isto pode chegar?

São tudo coisas que podem correr muito mal, muito rapidamente. Por motivos como este, o conselho editorial do The New York Times escrevia esta semana que a nossa privacidade “não pode ser uma vítima do coronavírus”. E eu subscrevo na totalidade. Perante o nevoeiro que se impõe no caminho, é ainda mais importante que se faça zoom na prudência durante a pandemia. Às vezes, certas novidades não passam de meros cavalos de Troia.

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, a coordenar um Conselho de Estado à distância.Presidência da República

PS: Há dias, o WhatsApp anunciou uma novidade: já não é possível encaminhar mensagens “virais” de forma massiva. Parece coisa simples, mas é certamente das que medidas que mais vai contribuir para travar uma outra pandemia que está em curso: a do pânico e da desinformação, a que todos já formos expostos e que se propaga sob a forma de mensagens e “áudios” de supostos insiders que anunciam o fim do mundo. Mesmo assim, não baixe a guarida e seja prudente. Antes de partilhar uma informação, verifique sempre a veracidade da mesma.

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