É p’rá amanhã, bem podias fazer hoje
O que acontece, se não implementarmos Draghi, especialmente num cenário adverso? E podemos adicionar um fator de incerteza no curto prazo, nomeadamente o ciclo político e o resultado das eleições.
Durante décadas, Portugal habitou-se a discutir competitividade como uma questão ou um problema abstrato: produtividade baixa, salários contidos, investimento insuficiente, não obstante nos anos 90 do século XX ter sido criado o Fórum para a Competitividade que ocasionalmente apresenta estimativas. No entanto, e neste contexto, o Relatório Draghi muda o enquadramento na medida em que, não se trata apenas de crescer mais, trata-se de sobreviver economicamente num mundo instável, onde guerra, fragmentação geopolítica e competição tecnológica deixaram de ser cenários extremos e passaram a ser variáveis centrais.
A questão relevante deixou de ser “queremos implementar Draghi?”. A pergunta correta é: o que nos acontece, se não o fizermos, especialmente num cenário adverso? Portugal encaixa-se nesta fase com vantagens reais: energia renovável, integração europeia, (por enquanto) estabilidade institucional. Mas entra também com fragilidades estruturais já conhecidas: crescimento potencial reduzido; especialização produtiva de baixo valor acrescentado; dependência externa em energia, tecnologia e bens intermédios, e uma lentidão administrativa que transforma choques temporários em perdas permanentes. Em períodos de estabilidade global, estas fragilidades são geríveis. Em contexto de stress, tornam-se multiplicadores negativos.
Vamos a um exercício de stress económico, com três cenários plausíveis. O primeiro, energia e preços, com interrupções parciais em cadeias globais, com um aumento sustentado dos preços da energia e das matérias-primas, e com uma volatilidade elevada por um período de um a dois anos. Se nada fizermos, os custos energéticos industriais aumentam mais em Portugal do que nos países com mecanismos de amortecimento, sendo uma das maiores consequências a perca de margem e de investimento que as PME vão sofrer, provocando uma pressão inflacionista sem que haja aumento dos salários reais. Num cenário com a implementação das medidas Draghi, o choque na energia e nos preços é mais relativo, pois já teremos uma maior eficiência energética e uma menor dependência externa, fazendo que a indústria se torne mais resiliente para manter a produção, sem perca de margem e com uma variação muito menor da capacidade produtiva.
Vamos ao segundo choque: rutura de cadeias de abastecimento, como a escassez de componentes críticos (por exemplo, eletrónica, químicos, equipamentos), e a dependência nacional de grandes economias. Sem adotarmos o plano Draghi, com a periferia de cadeias de valor que temos, iremos sofrer atrasos e racionamentos, com a produção interrompida nos setores exportadores e a consequente perca de contratos internacionais. Se quisermos ser precavidos, teremos de nos virar para clusters europeus estratégicos, com um aumento da produção local e/ou regional, e com uma capacidade de adaptação mais célere.
O terceiro exemplo: em termos de stress orçamental e financeiro, com um crescimento baixo e uma despesa elevada (já vimos isso entre 2016 e 2023), uma maior pressão sobre as contas públicas e uma menor tolerância da União Europeia aos desvios estruturais, ficamos reféns de uma base fiscal fraca, com uma dependência reforçada de fundos europeus e com uma menor margem para implementar politicas sociais e investimento. Se não fizermos ouvidos de mercador a Draghi, poderemos ter um crescimento potencial mais elevado, com um investimento alavancado e não apenas despesa, por conseguinte, uma melhoria gradual da sustentabilidade orçamental.
Estes três exemplos mostram algo fulcral, o problema não é o choque em si, é a estrutura económica com que se responde ao choque.
Recordo um excerto da popular – e intemporal – canção (1983) de António Variações, no seu apelo urgente contra a procrastinação e a inércia: “É p’ra amanhã/ Bem podias fazer hoje/ Porque amanhã sei que voltas a adiar/ E tu bem sabes como o tempo foge/ Mas nada fazes para o agarrar…”. Acrescento que, perante a realidade do país, podemos adicionar um fator de incerteza no curto prazo, nomeadamente o ciclo político e o resultado das eleições presidenciais agendadas para o próximo domingo.
No hipotético cenário em que o Presidente eleito venha, no curto prazo, a dissolver o Parlamento, numa suposta pressão partidária, o impacto económico não decorrerá tanto da orientação ideológica em si, mas da interrupção da previsibilidade institucional. Uma dissolução precipita meses de governação limitada, atraso em reformas estruturais, reprogramações do PRR suspensas e decisões de investimento adiadas — precisamente num contexto europeu já marcado por ansiedade geopolítica e exigência de execução rápida e bastante diferente do passado.
Para uma economia com fragilidades estruturais, como é a nossa, este tipo de hiato decisório funcionará como um choque adicional autoinduzido, agravando o custo da inação face às recomendações do Relatório Draghi e reduzindo a credibilidade externa num momento em que rapidez e estabilidade são ativos estratégicos. Reforço que não se trata de um atraso de meses, mas antes de uma perda permanente de capacidade produtiva e credibilidade, que irá reduzir ainda mais o potencial de crescimento e aumentará o risco de estagnação prolongada.
A gestão ativa do risco institucional não está dissociada da resposta dos eleitores nem da abstenção, nem em esperanças ou demagogias ocas “do bem e do mal”. Será além da consciência individual, uma chamada coletiva a um sentido de responsabilidade ética!
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
É p’rá amanhã, bem podias fazer hoje
{{ noCommentsLabel }}