E Se Marcelo tivesse sido primeiro-ministro?

Marcelo Rebelo de Sousa foi um Presidente singular. Mas talvez tenha sido, no íntimo da sua vocação política, um Primeiro-ministro que Portugal nunca chegou a ter.

Terminou o período de dez anos da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. Para o bem ou para o mal, foi marcante.

Marcelo Rebelo de Sousa nasceu para a política no sentido mais pleno da palavra. Não apenas para a comentar, interpretar ou explicar, mas para a viver intensamente, todos os dias, com a energia de quem parece nunca desligar. Ao longo dos anos, consolidou-se como uma das figuras mais completas da vida pública portuguesa: conhecedor profundo dos dossiers, atento ao detalhe, rápido a reagir, omnipresente no espaço público e dotado de uma intuição política rara.

Enquanto Presidente da República, Marcelo foi um chefe de Estado profundamente activo, muitas vezes mais próximo do terreno do que do protocolo. O contacto directo com as pessoas, a leitura fina dos equilíbrios políticos, a capacidade de antecipar crises e de as amortecer tornaram-se marcas do seu estilo. Mas é precisamente aí que nasce a pergunta inevitável: e se Marcelo tivesse sido Primeiro-ministro?

Há em Marcelo um perfil executivo que sempre pareceu natural. Um homem de acção, hiperativo por natureza, com uma memória enciclopédica e uma disciplina de trabalho quase obsessiva. Alguém que estuda, liga, pergunta, cruza informações e decide. Um político que gosta de estar “dentro” do processo, a acompanhar cada passo, cada negociação, cada detalhe. Características que encaixam, talvez até melhor, no papel de Primeiro-ministro do que no de Presidente da República.

Como chefe do Governo, Marcelo teria provavelmente sido um gestor político incansável, um negociador hábil e um comunicador permanente. Com o desgaste da governação e a curiosidade de saber como faria comentário e decidiria sobre cada tema. Coitados dos Ministros desse Governo, certamente, mas estou certo de que teria usado a sua enorme capacidade pedagógica para explicar decisões difíceis, antecipar conflitos e criar consensos onde eles pareciam improváveis. E são tantos hoje em dia. O seu conhecimento do sistema político, das instituições e dos protagonistas poderia ter produzido um exercício do poder executivo marcado por pragmatismo, proximidade e inteligência estratégica.

Por isso, fica um certo amargo de boca. Não por aquilo que Marcelo foi enquanto Presidente, mas por aquilo que nunca chegámos a ver. A sensação de uma oportunidade que nunca se concretizou. A curiosidade legítima de imaginar como teria sido um país governado por alguém com tamanha energia, preparação e sentido político.

Marcelo Rebelo de Sousa foi um Presidente singular. Mas talvez tenha sido, no íntimo da sua vocação política, um Primeiro-ministro que Portugal nunca chegou a ter.

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