Em economias de mercado, o aumento dos preços é uma mensagem
Quando o petróleo e o gás natural sobem por causa de uma escassez efetiva ou antecipada, o mercado não está a falhar, está é a falar, e o erro começa quando os políticos decidem não o ouvir.
Há uma tentação recorrente, e intelectualmente pobre, em cada crise energética. Os governos, à esquerda e à direita, tratam a subida dos preços como uma falha de mercado que têm de corrigir o mais depressa possível. Como se o mercado estivesse a exagerar, como se o preço fosse uma espécie de ruído. É um reflexo compreensível, e em determinadas situações, até necessário, mas quase sempre enganador. E por estes dias, o que mais se ouve são pedidos e exigência dirigidas ao Governo para prolongar ou até aumentar os subsídios aos combustíveis.
Quando a energia fóssil fica mais escassa, mesmo por más razões como uma guerra, o preço não é o problema central, o preço é o mecanismo que transmite, em tempo real, que um determinado bem ou serviço se tornou mais raro, mais arriscado ou mais disputado. Essa mensagem é incómoda, claro, desde logo para os consumidores finais. Mas é precisamente por ser incómoda que é útil, porque obriga os agentes económicos, leia-se as famílias, as empresas, os investidores e os governos a confrontarem-se com uma realidade nova.
O aumento dos preços tem uma função económica que a política e os políticos raramente querem admitir, ou que omitem porque ficam sob pressão mediática. Disciplina o consumo, leva a cortar usos marginais, muda prioridades e reorienta o investimento. É assim que uma economia aberta responde à escassez sem depender imediatamente de racionamento administrativo, filas, quotas ou decisões centralizadas sobre quem pode consumir o quê.
É por isso que a reação política costuma ser tão reveladora. Os decisores políticos, em vez de explicarem que uma perturbação séria na oferta, como a que estamos agora a viver e como aquele que vivemos em tempos recentes, depois da invasão da Ucrânia, tem custos reais e exige escolhas difíceis, preferem vender a ideia de que será possível amortecer os seus efeitos. Protege-se o consumidor no curto prazo e protege-se um certo consenso social, mas não se protege a transparência na formação dos preços. E sem essa clareza, a adaptação chega mais tarde, mais cara e mais desordenada.
Como é óbvio, nem todas as intervenções públicas são erradas, mas deveria existir uma certa pedagogia, que não se vê. Em contextos de disrupção extrema e rápida, podem existir boas razões para respostas temporárias, desenhadas para evitar o pânico, por exemplo corridas às bombas de gasolina, as ruturas logísticas ou uma espiral de desorganização económica. O problema começa quando a exceção se transforma em regra e quando a estabilização artificial dos preços, através destas intervenções políticas, deixa de ser uma ponte para o ajustamento e passa a ser uma forma de o adiar.
É aqui que a política e os políticos entram em contradição consigo próprios. Gostam dos mercados quando nos dão eficiência, abundância e preços suportáveis, mas tendem a intervir quando o mesmo mecanismo – o preço — produz uma mensagem dolorosa. Querem os benefícios do sistema de preços, mas fogem aos seus custos políticos, ou melhor, tentam contorná-los.
Esta estratégia, no médio e longo prazo, tem consequências. Quando o Estado tenta esconder de forma persiste o sinal da escassez, não elimina a escassez, apenas a embrulha. As empresas mantêm comportamentos que já perderam racionalidade económica e os consumidores adiam ajustamentos que acabarão por ser inevitáveis. E o debate público degrada-se, porque passa a girar em torno da promessa impossível de evitar o aumento dos preços, em vez de discutir como distribuir de forma justa e eficiente o custo de uma realidade nova. Ou, pior, na identificação de bodes expiatórios por esse aumento dos preços, regra geral as empresas que estão no final da cadeia, junto dos consumidores.
Qual é a alternativa? Os governos têm de dizer com frontalidade que a escassez de petróleo e gás natural tem de ter um impacto nos preços, têm de explicar que esse aumento tem de gerar uma resposta do lado da procura, e não apenas truques ou subsídios do lado da oferta. E, como é obvio, têm de proteger os mais vulneráveis, os mais expostos a estes movimentos de preços, sim, mas sem destruir o sinal geral que obriga a economia a adaptar-se. Dito de outra forma, têm de distinguir de forma clara o que é um apoio social dirigido aos de menores rendimentos de uma estratégia de anestesia económica generalizada.
Numa crise energética, e é aparentemente o que estamos agora a viver por estes dias, o tempo nos dirá, governar não é fingir que o preço está errado, é dizer a verdade sobre o que o preço nos está a dizer. Quando o petróleo e o gás natural sobem por causa de uma escassez efetiva ou antecipada, o mercado não está a falhar, está é a falar, e o erro começa quando os políticos decidem não o ouvir.
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