Energia no centro do novo equilíbrio global

  • Maria João Coelho e Susana Bernardo
  • 6 Abril 2026

O sucesso desta transição dependerá da capacidade de transformar as oportunidades em realidade concreta, através de investimento, coordenação política e visão estratégica.

A recente escalada de hostilidades no Médio Oriente, com impacto no estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo e gás mundial, veio reacender preocupações sobre segurança energética e vulnerabilidade económica e política, já expostas pela guerra na Ucrânia. Os efeitos são imediatos: subida dos preços da energia, com impactos esperados na inflação, nas taxas de juro e no crescimento económico.

Nas últimas duas décadas, o consumo global de energia cresceu cerca de 38%, impulsionado pela Ásia e pelo desenvolvimento económico. Apesar do avanço das renováveis, que quadruplicaram, os combustíveis fósseis continuam a representar mais de 80% da energia primária. A transição energética está em curso, mas permanece condicionada por dependências estruturais que continuam a expor o sistema a riscos geopolíticos.

A procura energética deverá continuar a crescer até 2050, pressionada pela digitalização, nomeadamente centros de dados e inteligência artificial. Este contexto reforça o papel estratégico da energia na geopolítica global, mas também abre espaço a uma transformação estrutural: a eletrificação.

A eletricidade afirma-se como eixo central do sistema energético, com crescimento previsto de cerca de 40% até 2035 (AIE, 2025). A sua relevância decorre da capacidade de integrar renováveis e aumentar a eficiência. A substituição de combustíveis fósseis em transportes, indústria e edifícios, permite reduzir emissões e custos, diminuindo a exposição à volatilidade dos mercados energéticos.

Na Europa, esta transformação é, simultaneamente, uma necessidade e uma oportunidade. O continente enfrenta um equilíbrio exigente entre segurança energética, transição climática e competitividade económica, como sublinha o relatório Draghi. A aposta nas renováveis já elevou a sua quota na eletricidade para cerca de 47%, mas a eletrificação da economia avança mais lentamente. Ainda assim, a transição energética pode ser o motor de reindustrialização, inovação e autonomia estratégica.

A Península Ibérica destaca-se neste contexto. Com forte incorporação de renováveis e preços mais competitivos, beneficia de condições naturais excecionais para energia hídrica, solar e eólica. Esta vantagem posiciona a região como potencial hub europeu de energia limpa.

Portugal, em particular, tem vindo a consolidar uma estratégia centrada na eletrificação e em fontes endógenas, reduzindo a dependência externa e criando condições para atrair investimento industrial intensivo em energia limpa. Persistem desafios, como interligações limitadas, necessidade de armazenamento e maior agilidade nos licenciamentos, mas o potencial é grande. Segundo a McKinsey (2024), a reindustrialização baseada na transição energética poderá acrescentar até 15% ao PIB nacional até 2030.

Num plano global, o sistema energético entra agora numa fase decisiva. O setor elétrico afirma-se como pilar central não apenas da descarbonização, mas também da competitividade económica e da segurança de abastecimento. A crescente procura intensifica a pressão sobre as infraestruturas e evidencia a necessidade de transformação do sistema.

Responder a este desafio exige investimento consistente em redes, bem como em soluções de armazenamento que garantam flexibilidade e resiliência. Exige, também, reforçar a segurança energética através da redução da dependência externa, baseada em fontes renováveis endógenas, assegurando simultaneamente a fiabilidade do abastecimento num sistema mais variável.

Em suma, a energia tornou-se hoje um tema central de soberania, competitividade industrial, geopolítica e coesão social. A eletrificação surge como um caminho promissor para conciliar segurança energética, sustentabilidade e competitividade, sendo por isso onde se joga uma parte significativa deste novo equilíbrio global. No entanto, o sucesso desta transição dependerá da capacidade de transformar as oportunidades em realidade concreta, através de investimento, coordenação política e visão estratégica.

Nota: esta é uma coluna fruto da parceria entre a Women in ESG Portugal e o Mulheres na Energia (Associação Portuguesa da Energia) para o ECO. Por esta via pretendemos trazer conteúdos ligados ao ESG e Energia de forma descomplicada para a sociedade, na voz de mulheres, de gerações diferentes, que detêm expertise técnica na área.

  • Maria João Coelho
  • Diretora-Geral da ELECPOR (Associação Portuguesa das Empresas do Setor Elétrico)
  • Susana Bernardo
  • Responsável de ESG Risk, Banco Santander Totta

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