Entre a proteção e a proibição: estamos a preparar os jovens para o digital ou a afastá-los?

  • Vera Carrondo
  • 17 Abril 2026

A tecnologia não vai desaparecer, e as políticas públicas eficazes serão aquelas que preparem, capacitem e empoderem, em vez de, simplesmente, proibir.

A recente intenção do Parlamento português de proibir o acesso livre de menores de 16 anos às redes sociais e plataformas online representa um dos debates públicos mais importantes (e polémicos) dos últimos tempos. Depois de países como a França e a Espanha avançarem com ideias similares, Portugal aprovou um projeto de lei que visa restringir este acesso, exigindo consentimento parental formal para jovens entre os 13 e os 16 anos e proibindo completamente o acesso abaixo dos 13 anos — algo que, até agora, estava na lei, contudo, raramente era verificado de forma eficaz pelas plataformas digitais.

Por um lado, a justificativa apresentada pelos proponentes da lei faz sentido num plano superficial: proteger as crianças e adolescentes de conteúdos prejudiciais, cyberbullying, predadores online, vícios e impactos negativos na saúde mental. Estas preocupações são reais e têm vindo a ser documentadas em diversos estudos sobre os efeitos nocivos das redes sociais na juventude. A possibilidade de forçar plataformas a verificarem a idade dos utilizadores e a implementarem mecanismos de segurança mais rigorosos pode, em teoria, reduzir a exposição precoce a riscos.

No entanto, a simplicidade aparente desta solução oculta problemas complexos. Privar jovens com 14 ou 15 anos de aceder livremente a espaços digitais que já fazem parte integrante da socialização contemporânea pode ter consequências imprevistas. Hoje, as redes sociais não são apenas “lugares de entretenimento”, são espaços de aprendizagem, comunicação e até de construção de identidade. Ao restringir o acesso sem uma alternativa clara de educação digital, corre-se o risco de criar uma geração que fica excluída das experiências sociais online, ou que, por via das brechas técnicas, encontra caminhos alternativos menos seguros e menos reguláveis para conviver nesses espaços. Existe ainda a grande questão prática de como diferenciar, de facto, quem tem ou não 16 anos, numa internet onde já proliferam perfis falsos e alguns métodos eficazes de contornar barreiras etárias.

Além disso, a proposta levanta preocupações importantes sobre privacidade, ética e vigilância no espaço digital. A exigência de sistemas de autenticação para verificar idades coloca uma autoridade estatal ou um terceiro intermediário na posição de controlar o acesso a serviços que, por definição, são operados por empresas privadas. Isto não é apenas uma questão técnica: é antes, um debate sobre até que ponto o Estado deve intervir no âmbito da privacidade digital dos cidadãos, mesmo dos mais jovens.

É igualmente relevante pensar nas disparidades de acesso já que, nem todas as famílias têm a mesma capacidade de supervisionar ou gerir a vida digital dos seus filhos. Uma proibição rígida pode favorecer aqueles com meios e conhecimento para aplicar medidas de controlo parental eficazes e deixar os demais ainda mais vulneráveis a soluções improvisadas e arriscadas.

Confrontados com estes desafios, os legisladores precisam de ir mais além de uma simples proibição ou restrição; deverão sim apostar em educação digital e literacia em cibersegurança obrigatória nas escolas, na maior capacitação dos pais e em mecanismos de responsabilização que obriguem as plataformas a garantir ambientes mais seguros. Uma lei isolada, sem um plano integrado, pode ser tão ineficaz quanto paternalista.

O futuro digital do próximo adulto português começa hoje. Devemos proteger — sem excluir –, regulamentar — sem cercear –, educar — sem paralisar. A tecnologia não vai desaparecer, e as políticas públicas eficazes serão aquelas que preparem, capacitem e empoderem, em vez de, simplesmente, proibir.

  • Vera Carrondo
  • Head of brand strategy & corporate affairs da VisionWare

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