Entre respostas, vozes e escolhas: porque a jornada do cliente de seguros já não é linear
Rui Romeiro, Diretor-Geral de Marketing e Comunicação da SABSEG, adapta-se aos novos tempos de diferentes gerações de consumidores. E explica como está certo que os mediadores continuam fundamentais.
A jornada do cliente deixou de ser uma linha reta. E, com a chegada da inteligência artificial, deixou até de exigir cliques. Hoje, muitos clientes obtêm uma resposta antes de iniciarem a pesquisa e a decisão passa a nascer na síntese que a IA lhes entrega — não no caminho que percorrem. Durante décadas, o setor segurador acreditou num comportamento previsível: necessidade, pesquisa, comparação, decisão. Esse modelo desapareceu. Os consumidores mudaram depressa demais para continuarmos a tratá-los como se fossem um bloco uniforme.
A jornada tornou-se fragmentada e profundamente humana, marcada por gerações que lidam de formas distintas com a informação e com o risco. Os Baby Boomers (nascidos até meados dos anos 60) valorizam prudência e explicações completas; não assumem compromissos patrimoniais sem compreender o impacto real. A Geração X (meados dos anos 60 a finais dos anos 70) investiga intensamente, mas raramente fecha sem confirmar com um mediador — equilíbrio entre autonomia e orientação. Os Millennials (anos 80 e 90) querem rapidez e clareza, mas procuram sempre uma voz experiente quando a decisão tem peso real. A Geração Z (a partir de 2000), totalmente nativa digital, exige respostas imediatas e rejeita opacidade; porém, quando a complexidade técnica entra em cena, quer explicações diretas e honestas.
Desta diversidade nascem três movimentos que hoje marcam a decisão em seguros. O primeiro é o movimento de pesquisa–validação: começa online — ou na resposta gerada pela IA — e termina no mediador quando o cliente percebe que informação não é compreensão. É a evolução natural do antigo comportamento associado ao ROPO: não se trata apenas de pesquisar online e decidir “offline”, mas de receber uma resposta sintetizada e procurar quem a consiga interpretar. O segundo é o movimento entrada rápida, decisão humana: iniciar no digital pela velocidade, mas transferir a decisão para o mediador quando é preciso ajustar coberturas ou perceber impactos reais. O terceiro é o movimento consulta–confirmação: começar pela conversa com o mediador, recolher uma explicação sólida e validar depois, online, aquilo que foi entendido.
A tecnologia intensificou estes comportamentos. Com apps, mecanismos automáticos de encaminhamento, assistentes digitais e agora respostas geradas por IA, o cliente move-se entre canais sem aviso e, nalguns casos, sem navegar. A jornada deixou de ser um percurso e passou a ser uma sequência de microdecisões. Mas quanto mais portas se abrem, maior a dificuldade em transformar dados dispersos numa decisão segura. O setor deixou de controlar onde tudo começa ou termina; controla apenas a qualidade e a coerência de cada interação.
É neste ponto que a mediação portuguesa se reforça. Num cenário em que o cliente chega mais exposto a informação — e cada vez menos exposto a contexto — o mediador devolve estrutura ao processo. Traduz o que parece simples, identifica riscos que o digital não captura e transforma respostas rápidas em decisões bem fundamentadas. A presença humana não concorre com a tecnologia: completa-a. E completa-a porque compreende nuances que nenhuma IA alcança — fases de vida, tolerância ao risco, prioridades familiares, fragilidades silenciosas.
A jornada já não é linear. Em muitos casos, já nem é navegada. Mas a confiança continua a ser o elemento decisivo. É por isso que a mediação não é uma tradição do passado; é uma necessidade presente. Num setor onde decidir bem vale mais do que decidir depressa, interpretar continua a ser a diferença entre verdadeira proteção e simples sensação de segurança.
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