Era tão abjeto que não posso acreditar

Se a hipótese da simulação se vier a confirmar, as consequências da falsa bandeira têm de ser retiradas. É evidente que Ventura não teria condições políticas para continuar.

A democracia é um regime fiduciário: vive da confiança que os eleitores depositam nas suas instituições e lideranças. Por isso, preservar a credibilidade das regras é nevrálgico para a saúde de qualquer estado de direito. Para a salubridade do nosso, o ataque da semana passada ao gabinete de André Ventura é crítico: não me recordo de ter vivido outro momento com tal gravidade.

Qualquer assalto é grave. Se esse assalto ocorrer na casa da democracia, torna-se ainda mais grave. Se, dentro do parlamento, for no gabinete do líder da oposição, é gravíssimo. Contudo, se no gabinete do líder da oposição forem furtados documentos políticos, o caso atinge um nível de seriedade inédito. Nos EUA, uma situação possivelmente similar levou mesmo à queda de um presidente da República.

É exatamente por isto que acho que este caso não pode, de forma alguma, ser menorizado. É agora responsabilidade das forças de segurança decifrar o que se passou e entregar os culpados deste atentado político à justiça. E nelas devo depositar toda a minha fé.

É também pela dimensão do caso, potencialmente histórico na nossa democracia, que me custa acreditar na possibilidade de uma simulação. E também me custa também a conceber a facilidade com que tem sido discutida. Bem conhecemos o apalhaçamento das práticas institucionais para que o Chega tem contribuído ao longo dos últimos anos, mas isso não subtrai peso a este ato em particular.

Aprendemos desde crianças a história do rapaz e do lobo. Depois do festival de hambúrgueres, do galho e do suposto incêndio, do truz-truz nos corredores da Assembleia ou dos tiros em forma de rater, desconfiar é normal, percebo. Daí a assumir a culpabilidade da vítima, vai um grande salto.

Claro que quem olha para as imagens desconfia. Os vidros das molduras intactos, o terço cenicamente colocado, as capas voltadas para cima e todo o espalhafato quando os documentos estariam apenas em cima da secretária. O deputado que aparece mesmo a tempo de gravar, o aviso de que os documentos lá estariam e a porta destrancada. É estranho, claro. Mas não sou nenhum Poirot para daqui extrair mais do que um franzir das sobrancelhas.

Em todo o caso, o sucedido é devastador. Se partimos da presunção de vitimização, não só a maioria da opinião publicada o ignorou como instigou uma perceção de tratamento diferenciado, tendo banalizado um ato de vandalismo político. Por mais difícil que me seja acreditar numa encenação desta violência, se a hipótese da simulação se vier a confirmar, as consequências da falsa bandeira têm de ser retiradas. Na SIC Notícias, Cristina Rodrigues concordou que abandonaria o Chega, e é evidente que Ventura não teria condições políticas para continuar.

É verdade que a bitola moral não vive os seus melhores momentos. Há uns anos, apenas uma das aldrabices de que já falei teria sido o fim de qualquer carreira política, mas não pode valer tudo. Agora resta-nos esperar pelos resultados das investigações. Os culpados desta alarvidade não podem passar impunes. A segurança tem mesmo de ser reforçada e se, no fim, tudo não tiver passado de uma intrujice, então mesmo para os padrões de Ventura, não dá para continuar.

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