Era um café e um teste à resiliência europeia. Uma conversa com o comissário Wopke Hoekstra

  • João Maria Botelho
  • 17 Abril 2026

Depois de várias conversas, sessões técnicas e reuniões de alto nível, ficou-me evidente que a discussão sobre clima na Europa mudou definitivamente de patamar.

Escrevo-vos diretamente do emblemático edifício da Comissão Europeia, na Rue de la Loi, em Bruxelas. Estou aqui durante alguns dias a convite da DG CLIMA, num programa dedicado ao EU Green Deal, e posso dizer-vos uma coisa com total clareza: Depois de várias conversas, sessões técnicas e reuniões de alto nível, ficou-me evidente que a discussão sobre clima na Europa mudou definitivamente de patamar.

Tive a oportunidade de integrar um grupo restrito de jovens que se reuniu com o Comissário para o Clima, Net Zero e Clean Growth, Wopke Hoekstra, bem como com Elina Bardram, da DG CLIMA. E o que ficou destas conversas não foi a habitual retórica da “ambição” em termos abstratos. Pelo contrário: o tom foi pragmático, maduro e ancorado na realidade. Adiantando-me já à conclusão central: a transição só avançará verdadeiramente quando deixar de ser vista como um luxo moral e passar a ser entendida pelo que realmente é uma questão de competitividade, de custo e de independência estratégica.

Houve um momento particularmente revelador logo no início. Quando coloquei questões sobre o pacote omnibus, sobre a bússola de competitividade e sobre o relatório Draghi [sobretudo na sua dimensão de “desregulação”] a resposta foi quase desarmante na sua clareza. Falando de simplificação regulatória, a pergunta que pairou na sala foi direta: “como é que tanta gente inteligente conseguiu, há apenas três anos, criar propostas que geravam papelada redundante para 90% das empresas?”.

Mas o ponto não era um ataque à regulação. Era outro. Se uma regra gera custos, consome tempo e não produz impacto real, então a regra está mal desenhada. Simples. E este é, provavelmente, um dos temas mais sensíveis da fase política que a Europa vive. Simplificar não é recuar. Cortar burocracia inútil não é ceder. Em muitos casos, é a única forma de garantir que a transição continua de pé.

Depois veio a ideia mais forte de todas: temos de parar de falar como se clima e empresas estivessem em lados opostos da mesa. Esse enquadramento (disse Wopke Hoekstra) é um erro de raiz. A Europa tem de conseguir, em simultâneo, três coisas:

(i) ser mais limpa,

(ii) ser mais competitiva,

(iii) estar menos exposta.

Se falhar uma, falhará no processo da transição. E isto muda tudo, porque obriga a abandonar a narrativa simplista de que “o que é bom para o clima é mau para a economia” ou de que aliviar as empresas é automaticamente enfraquecer a ambição climática. Não: o verdadeiro teste é outro. Se uma política pública não baixa custos, não reforça capacidade industrial e não reduz dependências, então não está a resolver o problema.

É neste enquadramento que assenta a estratégia europeia: três pilares essenciais – (i) ação interna robusta, (ii) construção de coligações internacionais e (iii) mobilização de financiamento global. Mas com um limite claro: a Europa não consegue, nem deve, assumir o custo global da transição. A discussão sobre burden-sharing internacional será inevitável e juridicamente complexa.

Falou‑se de eletrificação, renováveis, redes, interligações, capacidade de armazenamento e até da energia nuclear como parte do espaço de soluções possível para a Europa. A ideia central era simples e difícil de contestar: ninguém abandona os combustíveis fósseis apenas porque “alguém pede”. Abandona‑os quando a alternativa é melhor – melhor no preço, melhor na segurança, melhor na escala. As pessoas não escolhem a pobreza energética. As empresas não escolhem perder margem. E qualquer política que ignore isto acaba sempre por chocar contra o muro da realidade.

Outro ponto que marcou a discussão foi o custo da transição ou, mais precisamente, o custo de não a fazer. Wopke Hoekstra referiu um relatório associado ao Reino Unido (possivelmente o Climate Change Committee (CCC) deste mês) que estima que o impacto financeiro de uma crise recente poderá ter sido superior ao custo total da transição até 2050. Mesmo admitindo que estes números não se aplicam automaticamente ao resto da Europa, a mensagem é poderosa: quantas crises são necessárias para perceber que permanecer preso ao modelo antigo sai mais caro do que mudá‑lo? Uma? Duas? Três? A Europa já teve exemplos suficientes e repetidos nos últimos anos. E talvez o erro político mais persistente seja este: tratar a transição como despesa, quando uma parte crescente do custo real já está exatamente na inação.

Este raciocínio torna‑se ainda mais pertinente quando se entra no tema da independência energética. O Comissário disse-o sem rodeios: a Europa é um continente “pobre” em energia. Isso significa que, sempre que o mundo treme, os preços entram-nos pela porta de casa. E enquanto isto não mudar, continuaremos estruturalmente vulneráveis. A alternativa passa por criar abundância de energia limpa. A expressão ficou a ressoar algum tempo na sala. Abundância de energia limpa (não apenas como meta ambiental) como condição material para baixar preços, proteger famílias, dar previsibilidade às empresas e deixar de viver ao sabor do mercado global.

Vista desta forma, a transição deixa de ser apenas uma “agenda verde”. Passa a ser também e cada vez mais uma agenda de soberania económica, de resiliência social e de melhoria da qualidade de vida.

Num debate onde quase tudo gravita em torno das emissões, o Comissário puxou o foco para algo mais estrutural: a Europa continua a usar demasiado e a reutilizar demasiado pouco. E isto não é apenas um problema ambiental. É um problema industrial. É um problema de competitividade. É um problema de dependência externa em matérias‑primas críticas.

Outro momento particularmente importante surgiu quando avançámos para o tema da economia circular. Num debate onde quase tudo gravita em torno das emissões, o Comissário puxou o foco para algo mais estrutural: a Europa continua a usar demasiado e a reutilizar demasiado pouco. E isto não é apenas um problema ambiental. É um problema industrial. É um problema de competitividade. É um problema de dependência externa em matérias‑primas críticas.

A ideia que deixou foi clara: se a Europa for capaz de liderar seriamente na circularidade nos próximos anos, ganhará em quatro frentes simultaneamente – clima, biodiversidade, autonomia estratégica e força económica. E talvez esta seja a parte mais interessante desta nova fase: clima e indústria deixaram de ser esferas separadas. O clima passou para o centro da estratégia industrial europeia. (E não querendo puxar a brasa à minha sardinha, já eu o tinha sublinhado no Forbes Summit: o futuro do nosso tecido empresarial depende de uma Europa competitiva, resiliente e industrialmente limpa.)

Outro tema muito presente foi o da comunicação redes sociais, novos formatos e desinformação. Hoje, não basta ter bons relatórios, dados sólidos ou políticas robustas. É preciso disputar espaço num ecossistema onde a atenção é curta, a linguagem muda rápido e a desinformação circula a uma velocidade brutal. Houve até um paralelismo muito interessante com o Brasil e com a sua capacidade de comunicar temas sérios num registo mais vivo, mais criativo e com algum sentido de humor. Confesso, já nutria admiração por essa habilidade, mas ouvir esta reflexão one-o-one foi particularmente relevante. As respostas do Comissário foram abertas, honestas e diretas. Aquilo que funcionava há um ano pode hoje estar obsoleto, o terreno muda depressa.

É isso que mais me tem marcado nestes dias em Bruxelas, a sensação clara de que a Europa entrou numa fase menos naive. Já ninguém sério fala da transição apenas como um dever moral, falamos de preços da energia, de simplificação regulatória, de investimento, de resiliência, de matérias‑primas críticas, de redes elétricas, de capital privado, de indústria e de poder geopolítico.

O clima continua a ser o centro mas o enquadramento mudou. Está mais realista. Mais adulto. E isso traz responsabilidades novas: disputar atenção, linguagem e confiança num ambiente saturado de ruído, fragmentação e opinião sem base factual. Vale para a política climática, mas vale para tudo. Daí ter sido tão relevante ouvir, repetidamente, que o combate não é só por melhores políticas. É também por uma esfera pública assente em factos, ciência e capacidade de distinguir evidências do ruído.

Já ninguém sério fala da transição apenas como um dever moral, falamos de preços da energia, de simplificação regulatória, de investimento, de resiliência, de matérias‑primas críticas, de redes elétricas, de capital privado, de indústria e de poder geopolítico.

Saio destes dias em Bruxelas com uma convicção reforçada: a transição não falha por falta de ciência. Nem por falta de objetivos. Quando falha é porque ainda não conseguimos alinhar suficientemente bem policy, investimento, execução e perceção pública. E é exatamente aí que esta nova fase europeia se decide.

Estar aqui a escrever-vos do plenário e ouvir isto de perto deu-me a certeza de que a pergunta essencial já não é se a Europa deve acelerar a transição. Deve. Isso é claro. A pergunta séria é outra: temos coragem para torná-la executável? Porque a diferença entre ambição e impacto começa precisamente aí.

E, não vou negar, foi profundamente encorajador, enquanto jovem, poder discutir estes temas de forma tão clara e honesta com o Comissário Wopke Hoekstra. Da nossa conversa, ficou sobretudo o apelo para continuar a amplificar a voz dos jovens e aprofundar o nosso conhecimento nos temas da sustentabilidade. Porque a Europa não é uma abstração nos Tratados é um projeto vivo, coletivo, que se constrói e aperfeiçoa ao longo do tempo.

E em tempos de policrise, a esperança de dias melhores é, por si só, um extraordinário motor para nos mantermos quentes.

  • João Maria Botelho
  • Global Shaper no WEF, Jurista

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