ESG no centro da estratégia empresarial: o caso português exige urgência política
A sustentabilidade e o ESG são, hoje, um pilar estratégico das empresas. Mas o caso português revela sinais claros de atraso que, se não forem corrigidos, podem ter impactos sérios na competitividade.
O Barómetro Internacional ESG 2025, da Ayming, confirma uma realidade que está a transformar profundamente o mundo empresarial: a sustentabilidade e a agenda ESG deixaram de ser um apêndice simpático da responsabilidade social para se tornarem um pilar estratégico das empresas que querem manter-se competitivas. Contudo, o caso português revela sinais claros de atraso que, se não forem corrigidos, poderão ter impactos sérios na competitividade e até na sobrevivência de muitas empresas, sobretudo das pequenas e médias.
Segundo o estudo, apenas 58% das empresas portuguesas têm uma estratégia ESG formalizada. Este número é significativamente inferior ao de países como Espanha e Itália, onde mais de 80% das empresas já adotaram quadros estruturados nesta matéria. A diferença não é meramente estatística: significa que uma parte considerável do nosso tecido empresarial está menos preparada para responder a exigências crescentes de clientes, investidores e cadeias de valor internacionais que já incorporam métricas ESG nos seus critérios de seleção. Esta lacuna representa, portanto, não só um risco reputacional, mas também uma barreira ao acesso a mercados e a financiamento.
É essencialmente no domínio regulatório que o desafio se torna mais evidente. A CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) obriga(rá) empresas de toda a Europa a reportar informação detalhada e normalizada sobre práticas ambientais, sociais e de governação. Sessenta por cento das empresas inquiridas já cumprem a diretiva e 31% estão em fase de implementação. Mas, mesmo aquelas que não estão diretamente abrangidas, acabam por sentir a pressão devido ao efeito em cascata: grandes empresas exigem que os seus fornecedores apresentem dados ESG para manterem as relações comerciais. Estima-se que cada empresa obrigada pela CSRD influencie até 16 fornecedores mais pequenos, o que significa que a conformidade deixou de ser opcional para quase todos os que operam em cadeias de valor estruturadas.
O problema é que esta transformação exige investimento e recursos humanos qualificados, algo que nem sempre está ao alcance das PME portuguesas. O estudo indica que 67% das empresas europeias enfrentam restrições financeiras na implementação de estratégias ESG, sendo que 22% as classificam como graves. Num país onde os custos de contexto (energia, fiscalidade, burocracia e acesso limitado a financiamento competitivo, entre outros) já condicionam a margem de manobra das empresas, este obstáculo é particularmente relevante. E se é verdade que existem fundos europeus e nacionais destinados à transição verde e digital, a sua utilização é frequentemente limitada por processos administrativos complexos, requisitos técnicos desajustados à realidade das PME e uma comunicação deficiente que impede muitas empresas de conhecer e aceder a estas oportunidades.
É aqui que a política pública desempenha um papel central. Não basta impor obrigações; é necessário criar condições reais para que as empresas as possam cumprir e transformar em vantagem competitiva. Isso passa por incentivos fiscais robustos que valorizem o investimento em energias renováveis, eficiência energética, tecnologias limpas e inovação sustentável, bem como por linhas de financiamento verde acessíveis, com garantias públicas, taxas reduzidas e candidaturas simplificadas. É também essencial criar mecanismos de apoio técnico que ajudem as empresas a interpretar a complexidade regulatória e a recolher e tratar dados de forma fiável, através de programas de formação especializados, plataformas partilhadas e centros de apoio regionais e/ou setoriais.
Portugal tem aqui uma oportunidade de ouro: se conseguir alinhar políticas públicas consistentes, financiamento acessível e capacitação técnica, poderá transformar a pressão regulatória num motor de inovação, atração de investimento e reforço da reputação internacional. Mas o tempo não joga a favor. Cada ano em que uma parte significativa do tecido empresarial opera sem estratégia ESG formal aumenta o risco de exclusão de mercados e redes de fornecimento.
O ESG já não é opcional e, para as empresas portuguesas, o desafio não é decidir se querem investir nesta área, mas sim garantir que têm os meios para o fazer de forma competitiva e sustentável. Com apoio político consistente, instrumentos financeiros adequados e apoio técnico estruturado, a sustentabilidade pode deixar de ser vista como custo para se afirmar como investimento estratégico, capaz de gerar valor económico, social e ambiental para a próxima década.
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