Estratégia para os Pagamentos: rumo a um Portugal mais competitivo

  • João Baptista Leite
  • 19 Outubro 2023

As soluções de pagamento, antes de introduzidas, deverão ser pensadas e adaptadas a cada tipologia de empresas, não só tendo em consideração a sua dimensão, mas também a maturidade de cada empresa.

Os últimos anos têm sido marcados por uma evolução notável na digitalização, catalisando avanços significativos em todos os setores de atividade. No setor financeiro, esta disrupção permitiu não só modernizar os sistemas, como trazer para o mercado novas tecnologias de pagamento. Reflexo dessa mudança é o crescimento dos pagamentos digitais e decréscimo do numerário que, de acordo com um estudo do Banco Central Europeu, foi utilizado para 59% das transações no ponto de venda em 2022, menos 13% que em 2019.

Esta é de facto uma alteração de paradigma, em sintonia com a Estratégia Nacional para os Pagamentos de Retalho, recentemente publicada pelo Banco de Portugal, que incentiva à inovação e à introdução de novas soluções de pagamento que estejam alinhadas com as tendências do mercado e as exigências dos consumidores. Se fizermos uma reflexão, soluções como o contactless, as wallets digitais, Tap-to-Pay ou Buy Now Pay Later, anteriormente desconhecidas para o cidadão comum, estão cada vez mais a entrar no léxico dos portugueses, que, ao tornarem-se mais digitais, procuraram adotar experiências de pagamento diferenciadas, rápidas, seguras e cómodas.

No entanto, apesar da importância deste vetor da Estratégia definida pelo Banco de Portugal para 2025, torna-se crucial perceber, a priori, a realidade de cada negócio. Olhemos particularmente para o facto de em 2022 existirem aproximadamente 945,649 PMEs em Portugal, sendo que a grande maioria destas (95,3%) eram microempresas que empregavam entre zero e nove pessoas. Refletindo sobre esta conjuntura, acredito que as soluções de pagamento, antes de introduzidas, deverão ser pensadas e adaptadas a cada tipologia de empresas, não só tendo em consideração a sua dimensão, mas também a maturidade de cada empresa.

Reconheço, evidentemente, a valência do digital para ajudar as empresas a aumentar a sua competitividade e a acompanhar as tendências do mercado, mas, ao mesmo tempo, importa perceber que uma solução “one size fits all” pode não ser a mais adequada. Um meio termo poderá ser benéfico, por exemplo, para o pequeno comerciante, a quem a solução de pagamento mais adequada pode passar pela utilização de terminais de pagamento automático (TPA) que são gerados a partir de smartphones – uma solução que não só facilita o facto do comerciante não precisar do tradicional TPA, como consegue ser mais sustentável.

Não obstante, e uma vez identificado este desafio, será fundamental que os vários “players” do ecossistema dos pagamentos (e financeiro) tenham a capacidade de educar os comerciantes e consumidores, de forma que estes tenham conhecimento da existência destas novas soluções de pagamento, e, mais do que isso, reconheçam o seu propósito e segurança. E aqui a segurança é um aspeto basilar, na medida em que é normal, perante algo novo, existir algum ceticismo. No entanto, à medida que as soluções evoluem, também a segurança vai (e deve) evoluir, dotando-se das ferramentas tecnológicas necessárias para garantir a proteção do utilizador.

Por fim, e entrando agora no último vetor da Estratégia Nacional para os Pagamentos de Retalho para 2025 – resiliência e sustentabilidade – acreditamos que este é um dos pontos mais importantes porque é, efetivamente, necessário criar um compromisso entre todas as partes deste setor para o tornar cada vez mais sustentável. Pode passar, nomeadamente, pela concretização de medidas como a não impressão dos talões, a reciclagem dos cartões (que já se verifica no mercado), mas a ambição tem de ser maior. Temos todos, mas cada um ao seu ritmo, de nos tornar mais digitais na perspetiva de reduzirmos a pegada ecológica do setor.

Estou confiante que esta Estratégia representa um importante primeiro passo rumo ao crescimento do setor dos pagamentos e, por conseguinte, ao crescimento da nossa economia. Será por isso imperativo existir compromisso e cooperação entre os diferentes agentes para levar o nosso país mais além, preparando-nos para novos desafios que a evolução digital nos irá colocar.

  • João Baptista Leite
  • Presidente da Unicre

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