Falemos sobre economia da Saúde

No fim de contas, colocar um valor monetário a cada vida humana é moralmente complexo. Mas eu vou mais longe: talvez não o fazer seja ainda mais complexo.

A Economia e os seus princípios operam nas nossas vidas em todos os momentos. Não defendo, necessariamente, uma abordagem economicista do fenómeno social, mas é certo que a Economia nos ajuda a criar uma grelha de compreensão da realidade. Contudo, os mecanismos pelos quais a ciência económica opera nas nossas vidas não são sempre os mesmos, não são lineares e muitas vezes parecem até contraintuitivos. No caso da Economia da Saúde, tudo isto se torna muito mais evidente.

Todos os dias discutimos o SNS, os tempos de espera, as comparticipações ou até, por vezes, os incentivos, mas será que a nossa intuição está sempre do lado certo? A resposta é um rotundo não. Não poucas vezes, conversamos com base em suposições sem fundamento, com base em impressões. Outras tantas fazemo-lo até com suporte de um quadro mental económico, mas ignorando as especificidades do setor da saúde. Na verdade, por um conjunto de razões, este setor é muito especial.

Desde a elevada incerteza subjacente à potencial necessidade de cuidados de saúde, até aos claros problemas de risco moral e seleção adversa, passando pelas complexas relações de agência entre médico e paciente ou pelos incentivos à inovação, as diferenças face a outros setores são claras. No fim, tudo isto é ainda condimentado por preocupações ímpares com a equidade que fazem muitos até duvidar da moralidade dos lucros neste setor. Há aqui algo indubitavelmente distinto.

Tudo isto nos leva a ter opiniões muito sérias. No fim de contas, colocar um valor monetário a cada vida humana é moralmente complexo. Mas eu vou mais longe: talvez não o fazer seja ainda mais complexo. Todas as escolhas têm um custo de oportunidade, os fundos não são ilimitados e, por vezes, salvar umas vidas pode significar que outras fiquem por salvar.

Os nossos primeiros instintos talvez estejam errados. Quando ouvimos discussões sobre tempos de espera, muitas vezes ficamos com a impressão de que são um erro por definição: um mal que afasta os contribuintes dos serviços financiados com os seus impostos. Mas e se as listas de espera forem essenciais para o sistema? São um garante de que os recursos não são desperdiçados com consultórios vazios. E se os tempos de espera forem um mecanismo de preço escondido, implícito? Num sistema gratuito, o receio de sobreconsumo existe e esta triagem é importante.

Como em tudo, o diabo está nos detalhes. O problema está em os tempos serem excessivos, está em porem em causa a saúde dos indivíduos. O equilíbrio vai residir neste local virtuoso entre o compromisso médico e a procura pela eficiência. Este foi o tema do primeiro episódio do novo podcast Healthonomics Talks, do Health Economics and Management Knowledge Center da Nova SBE, do qual tenho a honra de ser o anfitrião.

Esta semana, inauguramos o projeto recebendo o Pedro Pita Barros e, daqui em diante, quinzenalmente, conversaremos sobre diversos temas que marcam a Economia da Saúde. Em episódios curtos e evitando cair no ‘economês’, tentamos tornar temas complexos um bocadinho mais simples, para que todos possamos participar no debate.

Mais do que promover esta iniciativa, escrevo este texto para lembrar que ainda é possível discutir estes temas com o objetivo de informar. Se estiverem dispostos a testar as vossas convicções, espero que este seja também o vosso espaço.

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