Familygate chegou aos cemitérios de Lisboa

O familygate chegou ao mundo dos mortos. Há uma associação com nove pessoas ligadas ao PS que quer, com dinheiros públicos, dinamizar os cemitérios lisboetas.

Se achou doentia a história das 40 nomeações de familiares de dirigentes socialistas para cargos no Governo ou na Administração Central ou Local, vai com certeza achar esta história mórbida.

Conta-nos o Expresso que a Câmara de Lisboa preparava-se para aprovar um protocolo com uma associação chamada Amigos dos Cemitérios de Lisboa (AACL), que passaria a ter poderes para desenvolver atividades nos cemitérios da cidade.

Esta proposta para “dinamizar os cemitérios lisboetas” — lá se vai o eterno descanso dos defuntos — terá partido de José Sá Fernandes, vereador eleito pelo PS. Segundo o semanário, o protocolo previa ainda que a Câmara cedesse um espaço no cemitério de Carnide para sede da Associação que iria contar também com o apoio de dinheiros da autarquia no valor de dez mil euros.

Esta história tem pelo menos duas coisas mirabolantes. A primeira é que o plano de atividades da Associação assume um conjunto de supostos compromissos da Câmara, tais como “a cedência de jazigos, a transladação de corpos para jazigos situados no Cemitério dos Prazeres”, havendo já uma lista de personalidades a ser transladadas, “várias a partir de outros cemitérios da cidade”.

Então é uma associação privada, e não o Estado, que vai escolher se Carlos Paredes ou Raul Solnado são enterrados no cemitério x ou y, ou na campa a ou b? Para os socialistas, à boa maneira de Luís XIV, L’État c’est moi. Não deixa de ser irónico que os socialistas tenham tantos pruridos contra o negócio das PPP na saúde e agora queiram fazer uma parceria pública-privada no domínio da morte.

A segunda coisa mirabolante desta história, e que foi revelada pelo vereador do PSD João Pedro Costa, é que os órgãos sociais da dita Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa são sobretudo militantes e dirigentes do PS, alguns com ligações familiares diretas. Não são um, nem dois, nem três. São nove, sendo que vários são familiares de… adivinhou, Carlos César.

Esta réplica do familygate, em versão mórbida, era caso para darmos uma valente gargalhada não estivéssemos nós a falar de mortos e de cemitérios. Na reunião de Câmara, perante o embaraço do socialista Fernando Medina, o social-democrata João Pedro Costa afirmou, com razão, que “querem fazer do Cemitério dos Prazeres um Panteão nº 2, onde se concentrará a elite escolhida por esta ilustre comissão socialista, que se substitui ao Estado”.

Nos órgãos sociais da dita Associação dos Amigos dos Cemitérios estão: “Jorge Ferreira, fundador e fotógrafo da campanha de António José Seguro e junta de freguesia do Lumiar; Pedro Almeida, fundador e funcionário do PS na Assembleia da República; a vice-presidente Inês César, sobrinha de Carlos César, funcionária da Gebalis; João Taborda, coordenador da CAF da junta do Lumiar; Catarina Farmhouse, assessora do PS no Ministério da Economia; Filipa Brigola, assessora do PS na Assembleia da República; Patrícia Vale César, deputada municipal do PS e esposa de Horácio César e mãe de Inês César, do PS; João Soares; Diogo Leão, deputado do PS; Horácio Vale César, irmão mais velho de Carlos César”.

Como se não houvesse socialistas a mais nesta história, conta-nos o Expresso que no seu plano de atividades, a Associação afirma já ter “autorização dada pelo vereador Duarte Cordeiro” para trasladações e cedências de jazigos. O socialista Duarte Cordeiro, para os mais distraídos, esteve na Câmara de Lisboa antes de subir ao Governo, onde foi ocupar o lugar deixado vago pelo seu amigo Pedro Nuno Santos como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares. E foi ele quem escolheu Catarina Gamboa, mulher de Pedro Nuno Santos, para chefe de gabinete na secretaria dos Assuntos Familiares… desculpem, dos Assuntos Parlamentares.

Confrontado com toda esta história, o melhor que o presidente da Câmara de Lisboa conseguiu dizer foi o seguinte: “Em relação aos cemitérios, deve haver muitas pessoas associadas ao PSD nos vivos e também nos mortos”. Não contem com o socialista Fernando Medina para “enterrar” os colegas de partido.

Nem com Fernando Medina, nem com Carlos César. A família César devia ser case study internacional. O jornal espanhol ABC já escreveu que “o presidente dos socialistas portugueses bate todos os recordes de nepotismo: o seu primo, a sua esposa, o seu filho, a sua nora e o seu irmão ocupam cargos políticos no organograma nacional e regional das ilhas dos Açores, de onde Carlos César é oriundo”. É caso para dizer que à mulher de César não basta ser. Como se não bastasse, descobrimos agora que há mais três Césares na Associação dos Amigos dos Cemitérios de Lisboa.

O que este caso caricato dos cemitérios vem mostrar é que o familygate não é um fenómeno ou uma coincidência de nomeações cruzadas de familiares para cargos públicos ou políticos. O familygate, o amiguismo, o compadrio, a partidarite aguda estão enraizados na sociedade, na política, nas empresas, na banca, na Administração Central e Local, e até nos cemitérios.

Nos discursos do 25 de abril, a direita ressuscitou o caso do familygate. Os social-democratas disseram rejeitar que “critérios clubístico-partidários ou de nepotismo familiar se sobreponham ao mérito e interesse coletivo” e os centristas exigiram um “pedido de desculpas ao Governo”, considerando que “a promiscuidade com o poder, seja de âmbito económico, partidário ou familiar, é incompatível com a dignidade democrática”.

Ferro Rodrigues, sempre pronto para despir as vestes de Presidente do Parlamento e vestir uma toga cor de rosa, saiu em defesa dos socialistas, condenando o que apelidou de “política de casos”. Como escrevia este sábado João Miguel Tavares no Público, Ferro Rodrigues aprecia o escrutínio, mas apenas em abstrato. Os “casos” escrutinados, em concreto, já são “arma dos fracos”.

Não podemos propalar grandes princípios democráticos abstratos no 25 de Abril e no 26 de abril nomear primos para serem assessores; no 27 de abril escolher a mulher do amigo para chefe de gabinete; no dia 28 de abril dar a morada falsa no Parlamento para arrecadar mais ajudas de custo; no dia 29 de abril acumular subsídios indevidos para viajar para os Açores; no dia 30 de abril marcar falsas presenças no Parlamento; e no dia 1 de maio criar associações de amigos socialistas para, com dinheiros públicos, escolher onde enterrar os nossos mortos.

Churchill dizia que na guerra uma pessoa só pode ser morta uma vez, mas que na política podia ser morta várias vezes. Devemos, ao contrário do que diz Ferro Rodrigues, expor, denunciar e repudiar os “casos”, para que a política, o Parlamento e o Governo não se transformem num cemitério de valores, da ética republicana e da dignidade democrática.

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