Fãs de “crypto”, está na altura de sermos crescidinhos

O novo recorde mostra que a bitcoin é mais perseverante do que muitos imaginavam. Mas persistem alguns desafios na inovação dos criptoativos. O setor ganha mais em os assumir do que os contrariar.

8 de julho de 2016. Passavam dois minutos das cinco da tarde quando publiquei o meu primeiro artigo sobre bitcoin na imprensa nacional. O título: “O valor da bitcoin está alto. Mas deverá subir ainda mais.”

Mais irónico ainda, a notícia começava assim: “À hora de publicação deste artigo, uma única bitcoin custava 582,65 euros.”

Cinco anos depois, esta quarta-feira, o preço da bitcoin atingiu novos recordes: no limite, alguém pagou 66.930,39 dólares (57.486 euros) em troca de uma moeda. A subida faz-me rir quando leio o que escrevi há mais de meia década naquele artigo no jornal Observador: “Uma só bitcoin já vale 580 euros.” Já vale, ou ainda só vale?

Há um ano, o preço da bitcoin estava abaixo dos 13 mil dólares. E não é preciso recuar muito mais para encontrar um mínimo de quase 3 mil, no fatídico 12 de março de 2020. O dia em que o mundo se apercebeu da pandemia que aí vinha e os mercados financeiros sofreram um abanão. Face ao novo máximo, voltam a surgir as vozes quem especulam que chegará aos 100 mil dólares, talvez nos próximos meses.

Ninguém sabe – e, se lhe disserem o contrário, ou manipulam o mercado ou certamente estão a mentir. Mas não consigo deixar de olhar para trás e pensar na hora que gastei a escrever aquele artigo. No dinheiro que podia ter ganhado e não ganhei, com pouco ou nenhum esforço, ao longo de todo este tempo. Na verdade, é um exercício pouco produtivo e até desprovido de sentido: poderia aplicar o mesmo argumento numa panóplia de outros ativos, das ações da Amazon aos títulos da Berkshire Hathaway.

Abandonando essa linha de raciocínio, e colocando de parte as histórias de quem tem bitcoins perdidas em computadores antigos – fortunas milionárias trancadas num cofre sem chave –, importa agora refletir em como chegámos até aqui. Mais um máximo histórico da bitcoin, um mercado de criptomoedas a valer quase três biliões de dólares e perto de 13 mil cryptos na plataforma CoinMarketCap.

Duas hipóteses são óbvias. Ou estamos a construir um gigantesco castelo no ar, ou alguma coisa nos está a escapar nesta história. Também pode ser uma mistura de ambas.

No caso concreto da bitcoin, há um fator importante a ter em conta. A minha geração, os persistentes milennials, tem sido fustigada por crises atrás de crises. Não conseguimos acumular património ao nível dos nossos pais, seja pelas baixas taxas de juro, seja pelos elevados custos de vida. Abra o seu browser e veja os preços das casas, o ativo mais importante para milhões de famílias em todo o mundo.

Claro que isso pesa na decisão de especular no preço das criptomoedas. Recentemente, perguntei a um amigo porque decidiu aplicar uma parte importante do vencimento na “compra” de uma série de cryptos que ele nem sequer entendia. A resposta é reveladora: “Porque posso ganhar muito dinheiro e não tenho nada a perder.”

Há ainda uma vertente de “jogo” em tudo isto, o mesmo fator que leva um pequeno investidor a optar por meia dúzia de ações individuais ao invés de comprar um fundo de índice. Escolher em que criptomoeda apostar injeta adrenalina nas veias. Facilmente, vira até uma obsessão.

Mas há mais nas criptomoedas do que a mera aposta nas subidas e descidas. Dá para argumentar que o valor das cryptos em dólares e euros é o grande incentivo para alguém continuar a navegar neste mercado. Contudo, existe uma série de tecnologias e de inovações associada a esta área a que não dá para ficar indiferente.

Provavelmente, todo o universo DeFi – expressão que significa “finanças descentralizadas” – é um dos grandes exemplos disso. Basta olhar para o caso da Uniswap. Trata-se de um protocolo descentralizado que permite transacionar diversos pares de criptomoedas sem a necessidade de um intermediário (resumindo, trocar a moeda X pela moeda Y, ou a Y pela Z).

Por outras palavras, apesar de ter sido criado por uma empresa com o mesmo nome, o sistema Uniswap funciona sem o controlo de uma entidade central. E a “custódia” das “moedas” também. Imagine o quão em apuros estarão os grandes bancos, corretoras e redes de pagamentos se esta tecnologia escalar para fora do mundo das criptomoedas – simplesmente, deixaríamos de precisar deles!

Nem todas as aplicações são financeiras. No início do ano, as inovações do universo crypto permitiram ao artista digital Beeple vender uma obra pelo valor astronómico de quase 70 milhões de dólares em criptomoedas.

Em termos genéricos, a obra não é mais do que uma imagem de computador que qualquer pessoa pode ver e descarregar. Compreensivelmente, vi muita gente – sobretudo da geração boomer – a dizer que aquilo era uma loucura. A prova viva de que as criptomoedas, mais tarde ou mais cedo, vão rolar pela encosta abaixo. E, de certa forma, até é. É mesmo uma loucura.

Mas é preciso ver além do óbvio. Para mim, mais entusiasmante é saber que a mesma tecnologia que permitiu isso – designada NFT – pode ajudar a resolver graves problemas no registo de propriedade em países menos desenvolvidos, onde é difícil um cidadão provar que detém um imóvel ou uma parcela de terreno. Nesses locais, um mero erro de registo é capaz de arruinar a vida de uma família.

Ignorar a inovação que emana do universo das criptomoedas é cometer os mesmos erros a que se assistiu nos primórdios da internet: descartar algo novo só porque não se compreende. Da mesma forma, aqueles que já deram passos neste admirável mundo novo não podem ignorar os problemas que o mesmo enfrenta.

Refiro-me às velhas questões da enorme pegada carbónica de algumas criptomoedas (sobretudo a bitcoin) e das fraudes que se multiplicam. Se não forem endereçadas, continuarão a ser um entrave a que se leve tudo isto um pouco mais a sério. Não é aceitável que o argumento usado pelos entusiastas mais ferozes para rebater o problema das emissões seja contrapor com as emissões da rede Visa ou até da extração do ouro. Também já vi acontecer.

Com o novo máximo histórico da bitcoin – essa bolha infinita que sobe e desce a toda a hora –, está mais do que na hora de sermos todos crescidinhos e de cada um assumir a sua quota de responsabilidade, dos utilizadores aos reguladores, passando pelos governos.

Aliás, isso deveria ser do maior interesse dos entusiastas, apostadores, programadores e especuladores, em suma, de todos os que veem no mundo crypto o prometido “metaverso” de que tanto se falou nos anos 90.

É que verdade seja dita: os entusiastas das criptomoedas conseguiram gerar toda esta inovação, contra todas as probabilidades, e chegar até aqui. Tenho a certeza de que encontrarão uma forma de mitigar os principais problemas que ainda fazem muitos torcerem o nariz quando ouvem falar de criptoativos. No caso das emissões, a solução técnica existe.

Numa área que já tem esta envergadura, varrer os problemas para debaixo do tapete deixou há muito de ser opção.

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