Ganhar a narrativa do custo de vida

Indiferente às estatísticas que mostram um aumento do rendimento real, a bandeira eleitoral do custo de vida está a fazer o seu caminho e pode levar o país para eleições antecipadas.

O secretário-geral do PS tem-se agarrado ao aumento do custo de vida para conquistar eleitorado. No sábado passado, em declarações à margem da apresentação do seu livro “Vencer os Tempos”, voltou a bater nesta tecla. De tal maneira que os jornalistas perguntavam sobre os juízes do Tribunal Constitucional ou a polémica sobre a utilização da Base das Lajes pelos EUA e José Luís Carneiro respondia com o custo de vida.

O motivo é simples: é um tema que reverbera junto do eleitorado. Não é só por cá e não é de agora. A evolução homóloga do índice de preços no consumidor saltou de 1,4% em 2020 para 9,5% em 2022 nos países da OCDE. O surto inflacionista global tornou-se o cavalo de batalha eleitoral um pouco por todo o mundo, ajudando a eleger Donald Trump nos EUA, Mark Carney no Canadá ou Anthony Albanese na Austrália.

A insistência de José Luís Carneiro pode estar a dar frutos. Pelo segundo mês consecutivo, a sondagem da Intercampus coloca o PS (23,6%) ligeiramente à frente do PSD/CDS (22,9%) nas intenções de voto, bem dentro da margem de erro. O secretário-geral dos socialistas é o preferido para primeiro-ministro (33,3%), com mais 5,1 pontos percentuais do que Luís Montenegro. Um cenário que parecia improvável há alguns meses. No barómetro DN/Aximage o PS (33,4%) surge com dez pontos de vantagem para a AD (23,2%), que até fica duas décimas abaixo do Chega (23,5%).

Claro que o líder do PS não é o único que tem vindo a martelar o tema. Toda a oposição o faz.

O Governo tem sido contido na sua resposta, no sentido em que não tem optado por grandes medidas emblemáticas como as que propõe a oposição.

A mais transversal é o acerto no ISP, que garante a neutralidade na receita de IVA dos combustíveis. Só que cada vez que o Ministério das Finanças reduz o desconto do ISP, emagrecendo a redução do preço nos postos de abastecimento, testa a paciência de muitos portugueses.

Há outras medidas: a descida do IRS ou o Passe Ferroviário Verde também respondem à pressão provocada pela subida dos preços.

Seguindo as boas práticas recomendadas pelas instituições internacionais, o Executivo tem também optado por medidas mais focadas, como o apoio no gasóleo profissional e agrícola. O que não é alheio ao facto de a manta orçamental este ano ser curta – já está ‘repuxada’ pelos empréstimos do PRR ou as verbas para responder ao mau tempo na zona centro. Ainda assim, segundo contas da Comissão Europeia, Portugal é o quinto país em que as medidas adotadas desde o início do conflito no Médio Oriente têm maior impacto orçamental.

O custo de vida mede quanto uma pessoa ou família precisa de gastar para manter o mesmo nível de bem-estar. Ou seja, depende da evolução dos preços e dos rendimentos. Ora o rendimento disponível bruto real em Portugal até tem vindo a aumentar desde 2021, segundo dados do Eurostat. No caso do salário mínimo (RMMG), há um ganho real de 11% entre 2021 e 2025.

Resta saber se esta dinâmica se vai manter, com a inflação de novo a acelerar e as taxas de juro a subir.

O descontentamento tende a crescer com o aumento dos preços nas prateleiras dos supermercados e nos postos de combustível, favorecendo a oposição. Indiferente às estatísticas do rendimento, a bandeira eleitoral do custo de vida está a fazer o seu caminho e pode bem levar o país para eleições antecipadas.

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