Há garantia. Não há garantia. Há garantia. Não há garantia
O Novo Banco foi vendido. É uma vitória do Governo e do Banco de Portugal, certamente. Mais uma vitória como esta e estaremos arruinados.
Há tanto tempo que estava para ser vendido que já não era Novo Banco. Estava quase a ficar Velho Banco. Desde janeiro de 2015 que Carlos Costa e o Banco de Portugal andavam às voltas a tentar vender o Novo Banco. O governador sempre disse que o Banco de Portugal não tinha grande vocação para vender bancos. Esta falta de vocação confirmou-se com a venda desta sexta-feira.
Isto nem sequer se pode bem chamar de venda. Vender pressupõe que se entregue um bem ou um serviço e se receba algo em troca. Aqui, não recebemos nada em troca, muito pelo contrário. Estamos a pagar para que alguém fique com o Novo Banco.
Carlos Costa errou nos cálculos. Achou que o tempo jogava a seu favor, mas com o passar dos meses o banco foi valendo cada vez menos. Os norte-americanos do Lone Star nem sequer foram à primeira tentativa de venda em 2015. Tal como os abutres, o fundo ficou à espera da deterioração de valor, perante a passividade de Carlos Costa. Quando a presa moribunda caiu no chão, exangue, o fundo chegou para o comprar ao desbarato.
Comprar ao desbarato significa que o banco valia mais? Provavelmente não. Um banco vale aquilo que alguém estiver disponível para pagar.
Os norte-americanos do Lone Star vão injetar mil milhões de euros para capitalizar um balanço que precisa de dinheiro fresco como de pão para a boca. E ficam com 75% do Novo Banco.
O Fundo de Resolução (que deveria começar a pensar mudar de nome para Fundo sem Fundo) fica com 25% e com uma vaga promessa de que se as coisas no futuro correrem muito bem ainda vão lá buscar algum. Mas o mais provável é que ainda tenham de ir lá deixar mais algum.
Este negócio pressupõe que o Fundo de Resolução dê uma garantia… ups, o primeiro-ministro não lhe chama de garantia. António Costa disse na conferência de imprensa que “não é concedida qualquer garantia por parte do Estado ou por parte de outra entidade pública”.
Então para não lhe chamar de garantia, vamos chamar-lhe de “coisa”. Este negócio pressupõe que o Fundo de Resolução dê uma “coisa”, provavelmente de 3,9 mil milhões, para cobrir a desvalorização dos ativos de uma carteira que o Lone Star escolheu e que duvida que valha o valor pela qual está inscrita no balanço. Se esses ativos forem vendidos abaixo do valor a que estão contabilizados, o Fundo de Resolução vai e cobre com a “coisa” a parte da erosão no rácio de capital do banco provocada pela tal desvalorização do tal ativo. Até um limite de 3,9 mil milhões de euros.
Ou seja, o Lone Star tem 3,9 mil milhões de razões para não se preocupar que possa encontrar alguma surpresa negativa nas contas do Novo Banco.
António Costa diz não só que não há garantias, como diz ainda que “não há novos encargos para os contribuintes”, porque quem paga no pior dos cenários é o Fundo de Resolução, ou seja, os bancos do sistema.
Tem razão. Só que o problema é que o Fundo de Resolução não tem dinheiro hoje em dia para mandar cantar um cego. Logo, se a “coisa” precisar de ser ativada, o Estado terá novamente de se endividar para emprestar dinheiro ao Fundo de Resolução (além dos 3,9 mil milhões já emprestados) para que este possa entregar ao Lone Star. E durante 30 anos, até 2046, os bancos vão devolvendo o dinheiro ao Estado.
Os contribuintes terão de suportar pelo menos o custo de oportunidade de ter o dinheiro parqueado na banca e de ver a dívida pública aumentar novamente. Porque o Estado para emprestar ao Fundo de Resolução também ele tem de ir pedir emprestado.
Além disso, é preciso lembrar que os bancos estão a pagar juros de 2% ao Estado pelo dinheiro que receberam para injetar no Novo Banco e de 1,38% no caso da resolução do Banif. O Estado que paga 4,6% para se financiar a 30 anos empresta à banca a 2% e os tais contribuintes, que não vão ter encargos, ficam a olhar para estes números com um sorriso amarelo. Mas confortados porque António Costa assegurou que não haverá garantias e encargos.
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