Há todo um negócio por trás deste negócio

  • Alexandre Montenegro
  • 21 Setembro 2026

O treatment nasceu para responder a uma pergunta: "Como faria este filme?" Talvez, sem nos apercebermos, tenhamos começado a premiar quem melhor responde a outra: "Como apresento esta resposta?"

Entre a campanha aprovada pelo cliente e o primeiro dia de rodagem existe um território praticamente invisível. É nesse espaço que vivem os treatments.

Quem trabalha na publicidade conhece bem esta palavra. Fora desse universo, poucos saberão exatamente o que significa. E, no entanto, é ali que se desenrola uma das fases mais exigentes, criativas e, paradoxalmente, menos discutidas da produção de um filme publicitário.

Existe, afinal, uma indústria invisível antes da própria indústria.

Há todo um negócio por trás deste negócio.

O treatment nasceu para responder a uma pergunta simples: “Como faria este filme?”

Ao longo dos anos, porém, deixou de ser apenas isso.

Hoje, um treatment pode representar dias de trabalho. Pesquisa. Referências visuais. Música. Casting. Direção de fotografia. Linguagem cinematográfica. Storytelling. Design. Escrita. Revisões. Discussões criativas. Em muitos casos, envolve não apenas um realizador, mas uma pequena equipa de profissionais especializados em construir uma visão para um filme que, muito provavelmente, nunca chegará a existir.

Há dias, um amigo meu, também realizador disse-me, a rir:

“Já nem digo que sou realizador. Sou autor de treatments.”

Sorri. Mas, quanto mais pensava na frase, menos graça ela tinha.

Porque, apesar da ironia, há nela um fundo de verdade. Em determinados períodos do ano, alguns realizadores passam mais tempo a imaginar filmes do que propriamente a filmá-los.

Lembro-me de uma altura em que muitos pitches começavam de forma diferente. Agência, produtora e realizador sentavam-se à mesma mesa. Conversava-se. Discutiam-se referências, intenções, soluções e formas de contar aquela história. Era muitas vezes nessa conversa que nascia a confiança.

Os treatments existiam, claro.

Mas surgiam sobretudo quando a dimensão, a complexidade ou a ambição do projeto justificavam esse aprofundamento.

Hoje, o treatment tornou-se, muitas vezes, o ponto de partida.

Não sei se isso é melhor. Não sei se é pior. Mas levou-me a fazer algumas perguntas.

Será que faz sentido aplicar exatamente o mesmo processo a projetos profundamente diferentes?

Será que uma campanha internacional e uma produção muito mais modesta exigem o mesmo nível de investimento criativo antes de existir qualquer adjudicação?

Quantas produtoras faz sentido convidar para um pitch???

Será que continuamos a escolher o realizador mais adequado para contar uma história ou estaremos, ainda que involuntariamente, a premiar quem consegue investir mais tempo, mais recursos e mais pessoas antes mesmo de saber se irá realizar o filme?

Talvez existam outras formas de chegar ao mesmo resultado.

Talvez alguns projetos possam começar por uma conversa. Uma troca de ideias. Uma primeira seleção baseada na sensibilidade criativa, na experiência, no percurso ou no portefólio de cada realizador. E só depois pedir um treatment desenvolvido às propostas que verdadeiramente acrescentam valor.

Talvez.

Ou talvez o modelo atual continue a ser o mais eficaz.

Mas há uma reflexão que me parece incontornável: O treatment nasceu para responder a uma pergunta: “Como faria este filme?” Talvez, sem nos apercebermos, tenhamos começado a premiar quem melhor responde a outra: “Como apresento esta resposta?”

O objetivo nunca deveria ser criar o documento mais impressionante. O objetivo deveria ser apresentar a melhor visão de realização para um filme.

No entanto, por muitas vezes e infelizmente, a forma acaba por se confundir com o conteúdo. Há treatments visualmente deslumbrantes, cuidadosamente construídos para impressionar quem os lê, que nem sempre encontram correspondência no resultado final. Da mesma forma, há visões extraordinárias apresentadas em documentos muito mais simples.

Talvez o verdadeiro desafio não seja escolher o treatment que mais impressiona.

Talvez seja escolher aquele que melhor revela a capacidade de transformar uma ideia num grande filme.

Este artigo não pretende defender que os treatments devam ser pagos. Nem pretende dizer que o modelo atual está certo ou errado.

Pretende apenas lançar uma conversa.

Porque as melhores indústrias não são aquelas que acreditam ter encontrado o processo perfeito, são aquelas que continuam a ter coragem para o questionar.

E talvez a verdadeira pergunta nunca tenha sido quanto tempo demora a escrever um treatment…

Talvez a verdadeira pergunta seja outra: será que o processo que utilizamos hoje continua a servir a criatividade da melhor forma possível? Ou será simplesmente a forma a que nos habituámos?

Porque, quando começamos a olhar para o território invisível dos treatments, percebemos rapidamente que esta é apenas a primeira das conversas que a nossa indústria tem por fazer.

As outras… ficam para um próximo artigo 🙂

  • Alexandre Montenegro
  • Realizador e produtor executivo Show Off / Mola

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