IA na auditoria: não se pode parar o vento com a mão
A inteligência artificial não substituirá o auditor, mas parte do trabalho que realiza. O que continuará verdadeiramente a diferenciar a profissão será o julgamento profissional. Mas há desafios.
A inteligência artificial (IA) chegou à auditoria da mesma forma que chegaram os computadores, a internet ou a digitalização dos processos: primeiro com desconfiança, depois com curiosidade e, inevitavelmente, com transformação. E há uma realidade que importa assumir sem medo: não se pode parar o vento com a mão.
Durante décadas, uma parte significativa do trabalho do auditor assentou em tarefas repetitivas, morosas e de reduzido valor acrescentado. Cruzamento de dados, análise documental, conferência de lançamentos, reconciliações, validação de padrões ou identificação de exceções consumiram milhares de horas de trabalho técnico altamente qualificado. Ora, é precisamente nesse território que a IA será mais disruptiva.
Num futuro muito próximo, grande parte dessas tarefas será executada por sistemas inteligentes, com uma velocidade, profundidade e capacidade analítica incomparavelmente superiores às humanas. A IA conseguirá analisar populações integrais em segundos, detetar anomalias em tempo real, identificar riscos emergentes e até antecipar padrões de fraude ou de incumprimento.
Mas importa deixar claro: a IA não substituirá o auditor. Substituirá, sim, uma parte do trabalho que o auditor hoje realiza. No final, aquilo que continuará verdadeiramente a diferenciar a profissão será o julgamento profissional. Será a capacidade de interpretar contextos, compreender comportamentos, avaliar intenções, ponderar riscos e tomar decisões equilibradas em ambientes de elevada complexidade. E, acima de tudo, será a ética.
Porque nenhuma IA possui independência moral. Nenhum algoritmo tem consciência profissional. Nenhum sistema substitui valores como integridade, ceticismo profissional, responsabilidade pública ou coragem para emitir uma opinião difícil quando ela se impõe.
A auditoria do futuro será, provavelmente, menos mecânica e muito mais intelectual. Menos centrada na execução e mais centrada na interpretação. Menos focada na recolha manual de evidência e mais orientada para a análise crítica, supervisão dos modelos e validação da fiabilidade da informação produzida pelas próprias ferramentas de IA.
Mas esta transformação traz enormes desafios. Para os auditores, que terão de reinventar competências, metodologias e formas de trabalhar. E também para os supervisores e reguladores, que enfrentarão a difícil missão de acompanhar uma revolução tecnológica sem perder de vista os princípios fundamentais da confiança, da transparência e da proteção do interesse público.
Estamos perante uma verdadeira revolução de processos. Talvez a maior desde o nascimento da auditoria moderna. Resistir-lhe seria inútil. O desafio não é travar o vento. É aprender a navegar com ele.
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