Imigração: uma crise de atenção ou de interesse?

  • João Pedro Pereira
  • 20 Abril 2026

Mais do que restringir a imigração, o foco tem de estar na alteração da estrutura produtiva do país, tirando partido das maiores qualificações em busca de maior produtividade e valor acrescentado.

  • A rubrica Geração de Ideias dá voz aos distinguidos com o Prémio Professor Jacinto Nunes, atribuído pelo Banco de Portugal, e que distingue os melhores alunos da licenciatura em Economia. João Pedro Pereira foi distinguido enquanto aluno do ISCTE-IUL, relativamente à edição de 2024/2025.

No coração de uma pequena cidade no sudeste de Indiana, pela lente de Kogonada, Gabriel, um jovem bibliotecário, reflete sobre que tipo de crise afeta a sociedade no seu afastamento dos hábitos literários: se uma crise de atenção ou de interesse. A densidade da reflexão conduz-nos à ideia de que a atenção é prestada ao que desperta interesse. No entanto, a tese dissertada faz da dúvida ponto central, encontrando na inquietude o maior alcance de objetividade possível.

No desassossego moderno com que a sociedade nos presenteia, a atenção aparenta deambular de acontecimento em acontecimento, perdida algures entre a rapidez do momento e o vazio deixado pelo desvanecimento do superficial interesse manifestado. É, aliás, na simultaneidade estonteante destes acontecimentos que o foco de atenção encontra a sua mais pura fonte de alimentação e distração.

Contagiada pela prescrição norte-americana, a escala desta velocidade de acontecimentos facilitou o sequestro da realidade pela perceção. Afinal, o que amanhã é refutado perde valor num mundo em que o interesse de hoje não é o de ontem, ouse alguém pensar que será o de amanhã.

Em Portugal, o debate público é também ele alvo desta tormenta desprestigiante da desejada caminhada em torno da realização do bem comum.

Num país que ocupa o segundo posto na União Europeia (UE) em termos de proporção de pessoas com 65 ou mais anos e o terceiro em termos de idade mediana, apresentando metade da população com mais de 47,3 anos (+2,4 anos que a média da UE27), tem sido a imigração a sustentar o crescimento da população ativa (85,5% dos residentes estrangeiros encontra-se em idade ativa).

Este crescimento, acompanhado pela dinâmica laboral apresentada pelos imigrantes (85,6% do tempo de permanência é, em média, despendido em situação de emprego por conta de outrem), tem permitido a expansão do emprego e das contribuições para a Segurança Social.

Neste enquadramento, o consumo privado – impulsionado pelo crescimento do emprego e dos salários – tem sido, nos últimos dois anos, o principal responsável pelo crescimento económico no país, que, perante uma anémica UE, tem crescido acima da média.

Contudo, quando medido por trabalhador, o crescimento do produto tem apresentado resultados mais modestos, em parte explicados pelo contributo negativo da intensidade capitalística (stock de capital por trabalhador). O ritmo superior do crescimento da população empregada tem ofuscado o ténue crescimento do stock de capital no país (com destaque para as máquinas e outros equipamentos), levado ao declínio deste rácio, afetando o crescimento da produtividade.

Segundo o Boletim Económico de março 2025 do Banco de Portugal, o stock de capital por trabalhador excluindo atividades imobiliárias, entre 2014 e 2022, diminuiu 9%, enquanto a produtividade total dos fatores (crescimento que deriva além do resultante do fator trabalho e capital), fruto da melhoria das qualificações e da consequente incorporação de sofisticação tecnológica na estrutura produtiva, contribuiu para o progresso do Valor Acrescentado Bruto (VAB) por trabalhador, que cresceu 4,9%.

Ora, num contexto de maior restrição à entrada de imigrantes, o abrandamento do emprego é expectável, o que, aliado a taxas de poupança elevadas (acima dos 12 % desde o último trimestre de 2024), desacelerará o consumo privado e o crescimento económico. Caso o crescimento não consiga ser sustentado por ganhos de produtividade, o modelo económico atual terá dificuldades.

O desafio passa então pela conceção que a atenção deveria estar alocada à estrutura produtiva do país e não à excessiva restrição da imigração. Existe uma incompreensão de base: a imigração com baixas qualificações não causa um modelo económico baseado em baixo valor acrescentado, antes é uma consequência dele.

Assim, se a intenção é a mudança do perfil de imigração atraída, o país deve ter a capacidade de alterar a sua estrutura produtiva, criando empregos mais qualificados, com maior valor acrescentado, através da combinação de incentivos a processos de inovação disruptivos com uma intervenção pública estratégica em torno de missões comuns.

A aposta na melhoria das qualificações é o maior caso de sucesso nacional na transformação da estrutura produtiva. Este é o caminho a ser seguido, o do ajustamento progressivo da procura de trabalho à oferta cada vez mais qualificada. Só assim construiremos uma economia mais sofisticada, com melhores rendimentos, e integradora daqueles que aqui escolhem viver.

  • João Pedro Pereira
  • Colunista convidado na rubrica "Geração de Ideias". Licenciado em Economia pelo ISCTE-IUL.

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