Insurtech Insights Europe 2026: da promessa à execução no setor segurador
Carlos de Maria esteve em Londres a participar em uma das maiores conferências europeias anual sobre inovação em seguros e descreve o que de mais importante viu e ouviu por lá.
Recentemente realizado em Londres, o evento anual Insurtech Insights Europe voltou a reunir líderes, especialistas, empreendedores e investidores do setor segurador. Mais do que um ponto de encontro, o evento confirmou uma mudança de ciclo: a transformação tecnológica deixou de ser uma ambição futura para se tornar uma prioridade operacional.
Ao longo de dois dias de debates, ficou claro que a inteligência artificial já não é apenas um conceito em desenvolvimento. Hoje, está no centro das decisões estratégicas, com impacto direto na eficiência, nos custos, na rapidez de execução e na qualidade das decisões — tanto nas seguradoras como no trabalho dos mediadores.
Entre os principais temas, destacam-se algumas ideias-chave:
Inteligência Artificial e automação
A IA assumiu um papel central. O foco deixou de estar nas experiências isoladas e passou para a sua aplicação prática e escalável. A prioridade é clara: gerar impacto real no negócio, sobretudo em processos mais complexos.
Gestão de risco e prevenção
Para além da tecnologia, ganhou força a forma como o setor encara o risco, com uma clara evolução de uma lógica reativa para uma abordagem mais preventiva. O foco está na antecipação de riscos emergentes — em especial os riscos climáticos e cibernéticos — mas também numa maior orientação para a prevenção junto dos clientes, por exemplo na saúde, onde “prevenir é melhor do que remediar” ganha cada vez mais expressão.
Mais do que digitalizar processos, a prioridade passa por repensar decisões estruturais como a subscrição, a tarifação e a gestão de carteira, suportadas por novas fontes de dados e maior capacidade analítica.
Fator humano e talento
Aqui reforçou-se que o maior desafio: o fator humano. Apesar da ambição de transformação, persiste um desfasamento entre a visão estratégica e a capacidade de execução. Habilidades analíticas e digitais são urgentes: atrair e formar talentos é determinante para traduzir a tecnologia em resultados concretos.
Do piloto à produção
O setor procura agora escalar soluções, focando-se em casos de uso com benefícios tangíveis. Mais do que adotar tecnologia, é essencial garantir dados de qualidade, uma arquitetura flexível e uma governação eficaz. Só assim a IA poderá ser integrada de forma sustentável no negócio.
Importa sublinhar que isto não implica necessariamente grandes investimentos. Em muitos casos, o verdadeiro impacto está em saber tirar melhor partido de tecnologias já existentes, com orientação adequada e foco em aplicações práticas que podem melhorar significativamente atividades do dia a dia.
Insights e aplicações práticas
Ao longo dos vários debates, ficou claro que o desafio já não está na tecnologia em si, mas na sua aplicação e liderança: perceber que problemas reais a inteligência artificial pode resolver e como garantir valor efetivo.
Foi também evidente um ponto recorrente: não faz sentido perseguir “objetos e soluções brilhantes”. Apesar do ritmo constante de novas soluções tecnológicas, muitas acabam por ficar em fase de protótipo ou sem verdadeira integração nas organizações e parceiros comerciais, por limitações de complexidade junto aos sistemas de clientes, ou até cultura interna. O resultado é frequente: investimento, entusiasmo e equipas dedicadas, mas pouco impacto real para além de provas de conceito. Cada iniciativa tecnológica deve estar alinhada com casos de uso concretos e com a maturidade da organização.
Outro consenso importante foi claro: a tecnologia deve potenciar as pessoas, não substituí-las. O futuro passa por “IA com humanos”, onde os profissionais utilizam estas ferramentas como extensão das suas capacidades. Duncan Anderson, da WTW, partilhou também uma reflexão provocadora: num futuro próximo, os currículos poderão incluir assistentes digitais treinados para funções específicas, passando a fazer parte do próprio perfil de competências dos profissionais e influenciando a forma como o talento é avaliado e recrutado.
No contexto português, existe vontade de evolução, mas o diferencial estará no alinhamento entre visão e execução. Investir no fator humano, na governação de dados e em formas de trabalho mais ágeis será decisivo para transformar inovação em resultados concretos.
Conclusão
Em suma, o Insurtech Insights Europe 2026 deixou uma mensagem clara: a tecnologia é um acelerador essencial, mas não substitui a capacidade de execução. O verdadeiro diferencial continuará a estar na forma como as organizações conseguem transformar visão em prática e inovação em resultados concretos.
O setor segurador encontra-se num ponto de viragem. A oportunidade não está apenas em adotar novas tecnologias, mas em saber aplicá-las com foco, disciplina e propósito, reforçando simultaneamente a colaboração entre pessoas e sistemas inteligentes.
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