Inteligência Artificial: Qual a dosagem adequada para a economia?

Tal como os ensaios clínicos, a IA pode ser testada em diferentes contextos organizacionais para compreender os seus efeitos reais.

A conferência anual da Open & User Innovation Society, realizada entre 20 e 22 de julho na Nova SBE, trouxe à discussão um dos temas mais urgentes da atualidade: como avaliar o verdadeiro impacto da Inteligência Artificial (IA) na economia e na sociedade?

Com 114 palestrantes, incluindo nove keynote speakers, o encontro reuniu algumas das maiores referências mundiais nas áreas da inovação, transformação digital e IA. Entre elas, destacou-se o professor da Harvard Business School Karim Lakhani, fundador do Digital Data Design Institute e co-autor do influente Competing in the Age of AI.

Na sua intervenção, Lakhani propôs uma metáfora provocadora: E se olhássemos para a IA como olhamos para um novo fármaco? Uma inovação com enorme potencial, mas que requer testes rigorosos, dosagem adequada, e avaliação de efeitos adversos para podermos beneficiar do potencial máximo da sua adoção. Curiosamente aqui Lakhani convergiu com a intervenção inicial do ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, que sublinhou que “o importante é fazer as perguntas certas”. Fazer as perguntas certas e delimitar o que se quer investigar em testes clínicos é fundamental porque impacta diretamente a validade, relevância e aplicabilidade dos resultados.

Ensaios clínicos para a IA?

A analogia não é apenas retórica. Inspirado pelo rigor do método científico aplicado na medicina, Lakhani defende que a adoção da IA em ambientes corporativos deve ser precedida por verdadeiros “ensaios clínicos”, como os realizados com novos medicamentos. É exatamente esse o trabalho que a sua equipa tem vindo a desenvolver em colaboração com organizações como a BCG (Boston Consulting Group) e a Procter & Gamble (P&G).

Tal como os ensaios clínicos testam substâncias em diferentes fases, do laboratório à administração em humanos, a IA pode ser testada em diferentes contextos organizacionais para compreender os seus efeitos reais. A proposta de Lakhani é clara: a IA deve ser tratada com o mesmo rigor e prudência que qualquer outra tecnologia com impacto potencialmente sistémico.

Evidência experimental

Num estudo com 758 consultores da BCG, foi possível verificar que o uso do GPT-4 aumentou a produtividade (em cerca de 12%) e a qualidade do trabalho (>40%) quando as tarefas estavam dentro daquilo que a IA consegue executar bem. No entanto, em tarefas que exigem competências para lá da atual fronteira da IA, o desempenho caiu (~19% abaixo dos pares que não usaram IA).

Outro ensaio, com 776 profissionais da P&G, mostrou que indivíduos com acesso à IA podem obter resultados comparáveis, e por vezes superiores, aos de equipas inteiras sem IA. Estes dados sugerem que a IA pode reduzir o custo marginal do conhecimento especializado a quase zero, democratizando competências que antes estavam confinadas a perfis altamente técnicos ou seniores.

Um dos casos de estudo apresentados foi o da Moderna, a empresa farmacêutica que se tornou referência global pela rapidez com que desenvolveu uma vacina para a COVID-19. A Moderna integrou a IA de forma transversal, permitindo a qualquer colaborador (cientista, gestor ou administrativo) criar e usar o seu próprio assistente personalizado com o ChatGPT Enterprise. A experiência demonstrou como a IA pode ser uma colaboradora ativa, e não apenas uma ferramenta, transformando a organização do trabalho, eliminando silos funcionais e potenciando a inovação em todos os níveis da empresa.

O lado B da democratização

O uso indiscriminado da IA pode levar a decisões automatizadas, sem sentido crítico, sobretudo em contextos complexos. Lakhani alerta: “Não colocar salvaguardas no uso da IA é como administrar medicamentos sem conhecer a sua toxicidade.”

A título de exemplo, imagina-se a adoção da IA em diagnóstico médico hospitalar. Sem testes prévios rigorosos, as consequências podem ser imprevisíveis. É por isso que o Digital Data Design Institute da Nova SBE e da NOVA Medical School, em parceria com o instituto homólogo de Harvard, está a criar o AI Experimentation Lab, precisamente para estudar estas dinâmicas com evidência científica.

O desafio da governação

O que fazer, então, perante uma tecnologia tão potente e com efeitos ainda parcialmente desconhecidos? Para Lakhani, a resposta passa por liderança consciente, educação interna e mecanismos de governança que garantam um uso responsável e estratégico da IA. Tal como os medicamentos transformaram a saúde, a IA pode transformar a economia, mas apenas se a usarmos com inteligência, concluiu.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Inteligência Artificial: Qual a dosagem adequada para a economia?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião