Laboratórios colaborativos, a melhor resposta ao ‘vale da morte’ da inovação

  • Carlos Jorge Silva
  • 17 Abril 2026

Todos os dias somos confrontados com ideias com potencial vencedor. O vale da morte não é intransponível, mas a sua travessia exige coordenação. Em economia, coordenação chama-se colaboração.

Entre uma ideia promissora e um produto no mercado existe um abismo silencioso. Chama-se “vale da morte” e é onde a grande maioria da inovação morre, não por falta de valor, mas por falta de estruturas adequadas de apoio, quer materiais, quer financeiras.

A taxa de insucesso no vale da morte é brutal. Estima-se que entre 70 e 90% das ideias falham nesta “travessia”. De 100 ideias promissoras, apenas 10 a 30 chegam a protótipo. Dessas, só cinco a 10 alcançam o mercado e uma ínfima parte, cerca de 1%, é considerada economicamente sustentável. No universo das startups, os números confirmam esta tendência: mais de 25% não sobrevivem ao primeiro ano.

O “vale da morte” é considerado uma das metáforas mais poderosas do ecossistema da inovação. O conceito foi popularizado nos Estados Unidos pela National Science Foundation, nos anos 80 do século passado, ganhou força nos anos 2000 associado ao ecossistema das startups e aplica-se hoje a três contextos principais: inovação científica, startups e grandes empresas.

À beira deste abismo, onde as ideias falham por “agonia” e não por falta de potencial valor de mercado, estão sobretudo a ausência de capital para demonstrações piloto ou industriais e certificações, a falta de validação real do mercado, a falta de recursos e conhecimentos para a comercialização, e a burocracia que torna cada passo mais lento do que o mercado tolera.

No contexto da inovação científica, o vale da morte situa-se precisamente entre os níveis TRL 4 e 6, isto é, após a validação laboratorial, mas antes da adoção industrial. É aqui que a transformação do conhecimento em produto falha com maior frequência.

Em Portugal, este fenómeno é particularmente agudo. Temos programas excelentes para investigação fundamental e apoio a startups nas fases iniciais, mas existe um vazio no meio: tecnologias validadas em laboratório que não conseguem chegar ao mercado por falta de capital para demonstrações industriais, certificações ou linhas-piloto. É aqui que muita inovação portuguesa morre, nomeadamente na área das deep tech, onde as necessidades de investimento são maiores e potenciais retornos financeiros a curto prazo para investidores são menos atrativos que, por exemplo, para as digital techs.

É nesta fase que os ecossistemas colaborativos – como os que são hoje dinamizados pelos laboratórios colaborativos (CoLABs) em Portugal – surgem, não como uma solução milagrosa, mas como resposta estrutural, um mecanismo de partilha de risco, custo e conhecimento. Porque a complexidade tecnológica, a velocidade do mercado e a interdependência global assim o exigem.

Através da inteligência coletiva é possível distribuir riscos e partilhar custos, combinar competências, acelerar ciclos de aprendizagem e validar antecipadamente com a indústria. Quando empresas, centros de investigação e instituições académicas operam em rede, a travessia do vale da morte deixa de ser uma aposta solitária para se tornar um esforço coordenado.

Todos os dias somos confrontados com ideias com potencial vencedor. O vale da morte não é intransponível, mas a sua travessia exige coordenação. Em economia, coordenação chama-se colaboração. Essa é a principal missão dos laboratórios colaborativos.

  • Carlos Jorge Silva
  • Presidente do CoLAB AlmaScience

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